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CAPÍTULO II

ESTAÇÃO:

Seu Papel na Comunidade.

2.1 -  O “Mal Necessário”.

A História das mulheres esteve atrelada aos discursos masculinos, idealizados pela igreja Católica, gerando uma dicotomia em torno das visões criadas pela mulher: uma sereia a mulher honesta mãe-de-família e a outra a mulher de “vida livre”. A primeira esteve circunscrita na esfera do lar, o ideal de esposa-mãe que foi difundido no Brasil colônia pela igreja Católica, com o intuito de adestrar as famílias para difusão da fé Católica, bem como estabelecer um controle sobre o mundo marginal das diversões. Essa idéia de mulher honesta mãe de família esteve associada à virgem Maria, sinônimo de castidade, devendo preservar-se virgem para o casamento, ser assexuada, ver o sexo apenas para procriação, além de estar totalmente submissa ao homem[1].

Incorporando os discursos da igreja, os médicos difundiam o ideal da esposa-mãe, pois não amamentar e não ser mãe seria entra na esfera da anormalidade. Estes foram mecanismos utilizados para privar a mulher do espaço público e reservá-lo ao homem. Em contraponto ao ideal de virgem e mãe, a existência da mulher sensual, pecadora e prostituta tem sua imagem vinculada ao mal, pois as mulheres que não preenchiam os requisitos ditados pela natureza, teriam seu papel associado à transgressão, a anormalidade[2]. Para tal não seria preciso muito, bastando aos costumes de então, perder a virtude, não casar e manter vários relacionamentos. Estas definições exigiam das mulheres posturas morais rígidas.

Nessa perspectiva as prostitutas foram de grande serventia para a valorização do seu oposto: A mulher pura. Eram tranquilizadoras para liberação das fantasias sexuais dos prazeres masculinos. Os homens deveriam “queimar” parte do seu “fogo interno”, para acalmar o frenesi com a esposa recatada[3].

A prostituição no Almeida no período estudado insere-se nessa abordagem, sobretudo quando se percebe que principalmente a elite da cidade, incorporava o discurso da ética sexual. Através das fontes utilizadas para a execução deste trabalho foi possível evidenciar o ideário difundido nesta cidade acerca do comportamento sexual da mulher “honesta”, o da “puta” e do homem. A mulher “honesta” cabia resguardar-se para o casamento, e ao homem, reserva-se o privilegio de freqüentar os cabarés e bares para satisfazer suas fantasias sexuais com as “mundanas” e assim, exercer o seu papel de macho. As mulheres casadas ao ostentar este título eram respeitadas por seus maridos e nem sempre tinham direito a liberar seus desejos, fazendo com que os maridos procurassem os prazeres que a cidade oferecia, que significavam lugar de transgressão do comportamento, forma de fugir ao isolamento da vida conjugal[4].

As meretrizes mexiam com o imaginário masculino causando-lhes fascínio. O Senhor Altamiro Gomes, ao rememorar a sua vivência na zona de prostituição evidencia a mentalidade de alguns homens casados e não casados freqüentadores da zona de prostituição.

“Naquele tempo achava que tinha diferença, porque naquele tempo, casar com a mulher dele, ele dava todo respeito (...) e as mulheres lá elas levavam uma vida mais solta, mais livre, tem coisa que é diferente”.[5]

 

As meretrizes eram vistas como transgressoras dos padrões morais femininos, e fala do Srº. Altamiro sinaliza elementos fortes acerca da visão de alguns homens em torno das “horizontais” [6]. Assim, a infração dos valores excitava o imaginário masculino levando-os a procurar as “horizontais”. As prostitutas para certos homens representavam a possibilidade de fruição, muitas vezes postada por algumas esposas, ou até mesmo pelos próprios homens carregados de moralidade que não permitiam as suas esposas mais desenvoltura no ato sexual. Nesse caso os discursos em torno da preservação da moral sexual recaíam sobre as mulheres. Segundo Michael Foucalt as regras de conduta moral são elaborações realizadas do ponto de vista masculino para dar forma a sua conduta[7].

Dessa forma, nota-se que o modelo de relacionamento que exigia da mulher de família, fidelidade, recato, entrou em confronto com as vivências sexuais das prostitutas, que proporcionava ao homem um relacionamento com maior intimidade corporal com seus clientes. As sufocações feitas às moças “honestas’ não atingiam as meretrizes, ficando evidente que o homem podia dispor de várias mulheres fora do casamento, e a mulher deveria respeitá-lo ver o sexo somente para procriação, tendo então as práticas sexuais do casal limitadas.

Os moradores do Almeida nas décadas de 1960 e 1970 trazem resguardadas na mentalidade os princípios de moralidade, os valores que as famílias “honestas” deveriam ter independentemente de classe social. Conviver com a prostituição talvez fosse uma forma de manter a ordem dentro das famílias.

 A literatura existente acerca da prostituição evidencia a prática como um “mal necessário” que sempre existiu, a profissão mais antiga do mundo, onde teria que ser tolerada para manter a ordem dentro da sociedade. A sexualidade insubmissa foi estereotipada, rotulada como forma de manter a prostituta afastada do convívio social. “A puta” altiva com seu amor vendido amedrontava o homem, por não consegui contê-la, porém tinha que existir como salva guarda do casamento, desde sua existência estivesse “invisível a decência pública[8]”.

A prostituição enquanto “mal necessário”, esta vinculada principalmente à valorização da virgindade para o casamento, já que aos homens resguardava-se o direito ao sexo antes do casamento, o que representava também uma forma de demonstrar a virilidade masculina. Para as mulheres ser virgem ultrapassava a barreira do respeito e da moral, era sinônimo de “status”. A moça de “família” que se “perdesse” estava excluída das rodas sociais, além de não preencher o requisito básico para o casamento.

As rememorações do Srº. Altamiro, refletem um pouco a forma de pensar da maioria dos homens desta cidade.

 

(...) As famílias rica aqui no Almeida, uma filha deles se perder cum noivo, então se naquele tempo tivesse micareta, tivesse uma festa de reveillon ela ficava em casa. Porque se ela fosse na aurora ela não entrava(...)ela num entrava que ela não era mais moça. O que valia naquele tempo era isso (...)naquele tempo o cara ainda matava o outro por causa de uma filha.[9]

 

A virgindade desempenhava grande importância para os almeidenses, e certamente para muitas outras cidades interioranas. A moça que deixasse de ser virgem estava desvalorizada socialmente, correndo o risco de ficar “falada” e não constituir família. Fazer um bom casamento era o ideário de muitas delas.

O Sr. Altamiro Gomes evidencia em sua fala a relevância social da virgindade para o casamento: “A virgindade era uma tradição, uma cultura, era praticamente obrigada a manter a virgindade das jovens para o casamento”.

Nas rememorações dos entrevistados ficou evidente a importância social da castidade feminina para o casamento. A partir desse contexto com o significado da memória oral, resolvi ampliar as fontes documentais consultando os processos de defloramento. Como nos afirma Raphael Samuel “ a evidência oral deixa o historiador mais faminto por documentos e não menos; e quando achar poderá usar de uma maneira mais ampla e mais variada[10]”.

Dentre os autos consultados predominavam aqueles envolvendo moradores da zona rural. Certamente isso pode ser atribuído ao retardo na circulação de informações, visto que esta não se processou de forma homogênea no campo e na cidade. As fontes sugerem que no final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980 tornava-se visível a influência da revolução sexual no comportamento do jovem na zona urbana do Almeida.

Os processos consultados refletem um pouco o “drama” vivenciado pelas jovens, quando o defloramento se torna público. Em sua maioria, os processos envolvem relações entre casais de namorados, onde após determinado período o namorado pedia uma “prova de amor”, sempre com a promessa do casamento após a consumação do ato. Comportamento presente no depoimento de Jonas Souza namorado de Raquel:

 

(...) que manteve relações sexuais com sua namorada por duas vezes, na fazenda da mesma, que Raquel, sua namorada, já era deflorada, não se sabe por quem, que o querelante tencionava casar-se com a querelada, nas quando manteve relações sexuais com a mesma e constatando não ser a mesma virgem terminou o namoro.[11]

A justificativa dos namorados para fugir a reparação da “honra”, eram as mesmas na maioria dos processos consultados, ou seja, a jovem teria sido deflorada, portanto, não haveria o que “reparar”.  A atitude de Jonas após o defloramento de Raquel deixa transparecer a concepção machista em torno da moral sexual predominante na cultura local. A preservação da virgindade para o casamento tornou-se baluarte, a prostituição de certa forma contribuiu para a preservação da virgindade das moças.

Mas, e as jovens, o que elas pensavam disto? Ao que parece, o comportamento e a mentalidade masculina reforçavam a valorização da virgindade feminina para o casamento, já que os homens eram quem cobravam a castidade das jovens. Provavelmente algumas moças, noivas ou namoradas, tenham se utilizado das promessas de reparação da “honra” para terem acesso ao sexo antes do casamento, ou até mesmo para não perderem os seus amados, pois na maioria dos casos o defloramento representava uma “prova de amor”, passo importante para a realização do casamento, visto que o ato sexual para a mulher “respeitável” era estabelecido no âmbito do casamento.

É possível perceber através dos processos de defloramento articulados nos depoimentos, que jovens que por rebeldia, desafio ou romantismo tiveram acesso ao sexo antes do casamento e não conseguiram casar-0se com outro, pois a cultura predominante machista impedia, muitas vezes, que o homem casasse com uma mulher que “havia sido de outro”. A situação da jovem dependia exclusivamente do seu comportamento após a perda da virgindade, devendo “se impor” ter boa conduta, ou então sua condição estaria propicia a prostituição, pois teria perdido o seu “valor de moça”. A ao se “perder”, a mulher estaria entregue a própria sorte, pois mulher “tirada de casa” passa a pertencer à rua[12].

Os termos utilizados para rotular a jovem deflorada eram diversos: “se perdeu”, “fizeram mal”, “perdeu a honra”, “tiraram de casa”. Estes termos refletem a representação social negativa que existia em torno da perde da castidade, traduzem o senso comum da população. A “moral” da jovem resumia-se ao rompimento do hímem.

O Srº. Antonio Gomes em suas rememorações fornece elementos que evidenciam a situação da jovem deflorada: “digamos ela era vista como uma pessoa que poderia ser usada, quer dizer, a idéia dos rapazes era tentar conquistar aquela menina para ter relações sexuais com ela[13]”

A fala do depoente remete à idéia de que quando o defloramento sem reparação da “honra’ tornava-se público a jovem teria a imagem “desvalorizada”. Possivelmente muitas famílias aceitavam “pacificamente” a prostituição para atender as necessidades sexuais dos homens e assim tentar evitar que as “moças’ tivessem sua imagem “desvalorizada’ ou associada à prostituição.

As narrativas das pessoas entrevistadas articuladas aos documentos escritos conduzem à reflexão sobre uma pretensa tentativa de mascarar a ordem dentro do convívio familiar no Almeida. As pessoas que se intitulavam “honestas”, ignoravam as experiências vivenciadas pelas meretrizes, que buscavam nessa profissão a sobrevivência, e evidenciavam também uma forma de resistência ao papel tradicional vinculado à mulher, o de submissa.

2.2 – A Cumplicidade.

O s almeidenses souberam conviver com a prostituição existente nas décadas de 1960 a 1970, sem maiores conflitos. Entretanto, havia o distanciamento social das mulheres que ali faziam vida, já que, as meretrizes deveriam manter-se desligadas de certos eventos sociais ou até mesmo ter restrita a sua circulação pelas ruas da cidade, demostrando, desse forma, a existência de uma tolerância limitada por parte da “boa sociedade”.

A tolerância  limitada ao qual faço referência, diz respeito à segregação social das meretrizes, porque a prostituição existia no Almeida e para muitos ela representava a salva guarda das famílias, “o mal necessário”. Porém, havia limites para a circulação das meretrizes na cidade. Os sociais das “decaídas” não podiam confluir com os das moças de família. Por conta de sua conduta sexual as mulheres de “vida livre”, da zona da Estação, meretrício do Almeida, entravam em contradição com o termo “vida livre”, pois a sua liberdade se restringia a vida sexual e particular, porém, no tocante ao espaço público, seu direito de ir e vir estava podado, para o bem da ordem elas não podiam freqüentar os mesmos locais que certas famílias “ditas honradas”.

Nélia de Santana em seu trabalho sobre a prostituição feminina em Salvador faz referências a vigilância e a repressão realizadas em torno da prostituição, informando que esta entrava no rol da ilegalidade no momento em que implicava com a moral e bons costumes, principalmente através dos comportamentos escandalosos que se tornassem públicos.[14] Já Jurandir Freire aponta em seus estudos que a corrupção da moral feminina pelas prostitutas, está supostamente relacionada ao comportamento sexual descontrolado : A venda do sexo, a masturbação[15].

Dona Lindaura, a primeira pessoa entrevistada para efetivação desta pesquisa, relembra da segregação social das meretrizes, visto que a circulação em determinados espaços públicos era podada, como por exemplo na feira livre.

 

(...) os ricos ai embaixo as famílias. Quer dizer que o delegado nessa época ela num num ia fazer feira como hoje tem a liberdade de que faz ou não. Todo mundo num lugar naquele tempo num tinha, a família rica ai de manhã, de meio dia pra tarde, as mulheres daqui de cima ia fazer feira delas, pegar as rebarbas.[16]

 

A desenvoltura e a disponibilidade em ajudar de Dona Lindaura, ao rememorar essas vivências, sinalizou um elemento que não obtive de outros entrevistados, talvez porque ela seja moradora da área que correspondia à zona desde a década de 1960, e pôde acompanhar de perto e atuante o di-a-dia do meretrício. Ela apontou outra forma de segregação das meretrizes, a não permissão delas em clubes da cidade: “(...) Agora se um homem chegasse, pegasse uma mulher dessa e fosse levá numa dois que tivesse uma festa, se ele fosse rico a mulher entrava”.

Através da narrativa de Dona Lindaura é possível inferir que para certas famílias, ou instituições a circulação das prostitutas nos mesmos espaços e horários não era salvar a decência pública. É possível que, a não permissão da presença das meretrizes em festa esteja relacionada à clientela dos clubes: senhoras casadas, moças solteiras, ou seja, as famílias ditas respeitáveis. Em se tratando de uma sociedade que a questão moral sexual, a virgindade, sempre foi baluarte, a simples presença das meretrizes representava um ultraje aos valores familiares, já que o clube tinha status de familiar. É possível perceber a existência de um pseudo moralismo, porque a depender do acompanhante, a “mundana” circulava livremente nos espaços ditos “respeitáveis”, o que nos mostra que o poder econômico muitas vezes estava além das determinações moralistas.

Nélia de Santana afirma que as reivindicações da famílias decentes em relação ao controle das horizontais nos espaços públicos relacionam-se a contaminação mora pela simples presença da prostituta. Este aspecto tem grande relevância devido à diminuta população que propicia que as relações entre as pessoas esteja muito mais próxima e personalizada[17].

As visões estigmatizadas construídas em torno da prostituição, permitiram que houvesse uma tímida “guerra de lugares” sociais entre “mundanas” e mulheres “ decentes”. A cultura moralizante que predominava, muita vezes, não permitia que estes mundos se confluíssem com mais afinco.

Consultando os processos crimes uma história chamou-me atenção, devido à agressividade dos discursos contra as meretrizes e ao estereótipo construído em torno do espaço de trabalho destas mulheres.

Em 1972, foi movido um processo de estupro contra o jovem Armando em nome da jovem Diana. A jovem menor de idade alega Ter ido parar em “casa de mulheres’ porque foi enganada por uma senhora que a trouxe para o Almeida com a promessa de emprego na cidade. Dias depois foi deflorada através de um estupro, por Armando.

A seguir a versão da testemunha Augusto Silva que tenta justificar o ato utilizando informações de Armando : “(...) a mulher era moça mesmo, mas que ele a tinha furado” e que ela tinha perdido o direito porque tinha ido parar no brega[18]”.

O depoente confessa a culpa do réu, mas utiliza o discurso do ambiente propicio ao sexo para desculpabilizá-lo, ficando subtendido em sua fala que o brega é um local onde o homem procura as mulheres exclusivamente para o ato sexual. Desta forma o fato da jovem ter sido deflorada e de ter havido violência e a não permissão para a consumação do ato sexual, parece não ter nenhuma significação, o espaço onde Diana, se encontrava é determinante para justificar á violência sexual. Numa sociedade no qual predominava a valorização da virgindade para o casamento, há neste processo o descaso com estas idéias.

O mesmo significado aparece na fala de Armando: (...) não posso ir preso, porque tinha apenas mantido relações com uma “mulher de vida livre[19]”.

 

Nos processos é possível perceber que os depoimentos masculinos são carregados de idéias machistas que, de certa forma reproduzem a maneira de pensar da época, mesmo quando eram orientados pelo advogado. Há aqui a tentativa de isentar a infração através do ambiente prostitucional, e, portanto, o brega aparece como espaço modificador de direitos. A imagem da jovem é construída a partir da prostituição, é como se as prostitutas não tivessem o direito de negar o ato sexual, inclusive estando no seu local de trabalho. Nestas falas há a construção do discurso segregacionista da demarcação de espaços, remetendo à idéia de que mulher “honesta” não freqüenta as “casas de mulheres[20]” e quando o faz está propensa a perder a suposta respeitabilidade.

Vejamos a seguir as alegações finais da defesa:

 

(...) “ de modo que entrando num quarto de ambiente suspeito, diríamos melhor de procedência insuspeita, Diana estaria concordando em manter relações sexuais com o réu se não fora esta a sua intenção, ainda num quarto nas condições específicas, que outros motivos, nenhum ser humano poderia contra a vontade da mulher , possuí-la a força.[21]”

 

O discurso do advogado de defesa bem como o dos depoentes giram em torno da desqualificação das prostitutas e do ambiente propiciador de libertinagem. Estas idéias indicam que o prostíbulo a identidade da mulher está associada ao sexo, a falta de pudor. A simples presença feminina tornava-se um convite ao sexo.

Verifica-se no caso da jovem Diana um exemplo do estigma em torno das “mundanas”, a tentativa de desqualificá-las e colocá-las em posição de inferioridade em relação ás outras mulheres.

As idéias do jurista Antonio Cardoso em delitos contra a honra da mulher, de certa forma, coordenem com as idéias veiculadas nos discursos dos processos: “ a prostituta, mulher que faz comércio do seu corpo recebendo homens que pagam, não tem sentimentos de honra e dignidade. Quem dela abusa contra sua vontade, não lhe prejudica o futuro, não malha o seu nome a sua reputação[22]”.

Utilizando-se destas construções de valores a defesa conseguiu protelar a sentença final, o processo rolou anos na justiça até ser arquivado. É provável que o desenrolar deste processo que favoreceu o jovem Armando, teve como atenuante o fato do réu, ser irmão de uma pessoa de importância política na cidade. Ao mesmo tempo Diana contou com a assistência de duas  “mundanas” moradoras do meretrício, e não foi á toa que a defesa tentou desqualificar o depoimento destas mulheres. Ao analisar o papel que a prostituição representou para os almeidenses pode-se perceber que as mundanas representavam uma fonte de resistência, pois de alguma forma, negavam a sexualidade e submissa, já que elas rompiam com os papéis tradicionais vinculados à mulher, contestando as imposições das mulheres “ditas” honestas. Muitas vezes não se deixavam levar por discursos estigmatizantes os quais poderiam implicar mudanças no seu cotidiano, certas imposições que tentavam determinar seus aspectos de sociabilidade.

Seguramente, os estereótipos que predominavam sobre as horizontais se opõem a um certo silêncio sobre a outra parte envolvida no comércio sexual, o homem, pois a prostituição envolve os dois lados tanto de quem utiliza como o de quem é utilizado. Entretanto, a prostituta fica em desvantagem social, pois a ela cabe todo o adjetivo pejorativo, tornando-se um ser perversível e ante social.

O estigma gerado pela prostituição faz pensar que aqui a prostituição era como já foi explicitado o “mal necessário”, deveria existir como tentativa de manter a ordem social e familiar, além de gerar circulação de capital. Porém, é evidente que as meretrizes não eram vistas com “bons olhos” pelas pessoas da “boa sociedade”. Utilizavam seus serviços desde que elas se mantivessem longe dos espaços de sociabilidade determinadas às famílias. Para muitos, o comportamento peculiar das meretrizes poderia influenciar na conduta das mulheres de “família”, tornando a prostituição “tolerada”, desde que, segregada ao seu local de existência.

CAPÍTULO III

O DIA-A-DIA NO MERETRÍCIO E AS RELAÇÕES COM A SOCIEDADE

3.1 – As Aquisições

Dona Adelina de Jesus, ex-proprietária de bar na zona de prostituição do Almeida é uma personagem relevante na construção deste trabalho, por ser uma mulher que vivenciou múltiplas experiências nesta espacialidade do Almeida. Atualmente Dona Lina como é conhecida, mora na rua Alfredo Passos, rua adjacente da Estação. No primeiro contato que estabeleci com ela fui recepcionado com desconfiança, por ser um desconhecido que chegara com o intuito de revolver um passado que ela demostrou pouco interesse em revelar; suas memórias guardadas hesitavam em aflorar.

Fui conquistando sua confiança no decorrer do diálogo, entretanto, raras vezes ela se inseriu como personagem central dos seus registros. Havia barreiras em determinados trechos de suas rememorações, um certo cuidado em citar nomes de pessoas e até mesmo de assumir a centralidade da narrativa, o que faz lembrar Marina Maluf, ao afirmar que a memória é ao mesmo tempo individual e histórico-social[23].

Posturas como a Dona Lina deixam transparecer o quanto a prostituição é carregada de tabus que foram historicamente constituídos, tornando-se difícil a narrativa sobre esta experiência, quando a pessoa fez parte deste processo e vivenciou o preconceito arraigado na mentalidade daqueles que a cerca. Certamente, é difícil para uma senhora, hoje mão e avó, deixar aflorar tranqüilamente suas vivências enquanto prostituta. Assim, é mais fácil elaborar suas rememorações a partir de terceiros, ou permanecer presa a regras que a afastem de assumir a centralidade de seus relatos, evitando a narrativa na primeira pessoa.

Ouvindo as lembranças de Dona Lina, procurei, reconstruir alguns aspectos das relações estabelecidas no cotidiano do meretrício e o agenciamento de prostitutas para trabalhar na boate e nos bares do Almeida foi um destes aspectos: “quando chegava mulher bonita, mulher de fora pintava gente para beber e curtir né, inclusive no meu bar também tinha uma meninas de fora[24].”

O depoimento permite visualizar a importância econômica e social que o agenciamento proporcionava aos bares e a boate do meretrício. A chegada de mulheres de outras regiões era motivo de agitação. A “novidade” criava expectativa e aguçava o ímpeto dos clientes, sendo utilizada pelos proprietários como chamaris de clientes, haja visto, a expressiva rotatividade de prostitutas nos cabarés proporcionando constantemente aos clientes uma variedade de “mercadorias novas”.

O agenciamento de mulheres era comum nas boate e nos bares da zona de prostituição do Almeida, fato presente nas memórias dos entrevistados, principalmente  daqueles administravam bares nas adjacências da boate e dos freqüentadores assíduos. Geralmente o agenciamento era feito por alguém de confiança que ia buscar as meninas em outros municípios e até mesmo em outras regiões. O Srº. Betinho fala do agenciamento da s mulheres no período de efervescência do brega  nos anos 60: “agora no auge dos anos 1960 ai tava pegando fogo. Renovava a mercadoria, todo dia tinha mercadoria nova. Eram mulheres novas, tinha que vinha até de Sergipe e Pernambuco.[25]”.

As mercadorias novas que o depoente se refere eram as prostitutas, selecionadas de outras cidades para atender os anseios dos clientes. Nélia de Santana em sua análise sobre o agenciamento informa que a prostituição na maioria dos casos não envolve apenas a meretriz e o cliente, comumente tem a participação de outro personagem, o agenciador. A prática do proxenimento é tão antiga quanto a própria prostituição, porém o advento da sociedade industrial veio alterar a natureza da prostituição, tornando o trabalho sexual uma atividade propiciadora de lucros, sendo a base onde estava assentada a indústria do prazer. As horizontais passaram a ser vistas como “ bens de consumo” e de “produção”, devido à expansão do mundo da noite e a ampliação dos espaços de sociabilidade e de vida mundana[26].

Certamente os proprietários dos investiam na “renovação” do estoque (prostituta) para atender os anseios da clientela, e assim fomentar as transações comerciais, visto que esta rotatividade de mulheres proporcionava-lhes lucro. Mas, e estas mulheres, por que estavam constantemente se deslocando de outras regiões? Talvez, muitas delas utilizavam-se deste mecanismo com expectativa de lucrarem mais nesta profissão, já que no momento em que elas mudavam de cidade tornavam-se novidades, e poderiam obter um número maior de clientes.

 Assim como os trabalhos rurais estudados pelo Prof. Charles Santana[27], as prostitutas também migravam de cidade em cidade num processo continuo e incessante em busca de trabalho. Provavelmente o que levava estas mulheres a estarem constantemente migrando eram as condições impostas pela profissão: dívidas nas casas que trabalhavam, muitas vezes ocasionadas pela falta de clientes, seja por fatores econômicos do local ou por tornarem-se “saturadas” no mercado e, em alguns casos estas mulheres não gostavam de passar muito tempo em uma cidade.

Dona Lina rememorando suas experiências de proprietária de bar, comenta sobre a inconstância das meretrizes nas boates.

elas vinham para cá passavam 10 dias, 15 dias, iam embora, só vinham aqui passar uns dias, depois iam embora, poucas ficavam aqui. Conseguia um dinheiro depois tornava voltar ganhava um dinheiro e ia embora[28].

 

A intinerância das meretrizes foi um recurso utilizado por elas com o intuito de se beneficiarem financeiramente no comércio, entretanto muitos utilizaram desta prática para explorá-las economicamente. Geralmente as meretrizes recrutadas estavam atreladas as boates por dívida. Nestes casos o agenciador pagava sua dívida na boate no qual a meretriz trabalhava e ela passava automaticamente a dever para um novo patrão, e através deste acordos as prostitutas ao migrarem iniciavam o trabalho no novo local já endividada. Este mecanismo acabou tornando-se um ciclo vicioso, porque as prostitutas na esperança de “melhorarem de vida” muitas vezes tornavam-se presas fáceis nas mãos dos agenciadores.

A narrativa do Srº. Betinho sobre agenciamento permite visualizar alguns traços deste processo.

(...) Essas que vieram para aqui, só vinha essas pobres coitadas ai do nordeste. elas vinham, se elas deviam na boate, se devesse tantos reais, quanto é que você deve?

Ah! Eu devo tanto.

Se o cara que fosse buscar levava dinheiro e a criatura agradava ai pagava lá a despesa que ela devia e trazia pra ela chegá aqui e pagá[29].

 

Essa passagem do depoimento do Srº. Betinho, nas expressões, “pagá lá despesas que ela devia e trazia pra ela chegá aqui e pagá”, sugere que nesse processo migratório, muitas vezes as meretrizes ficavam atreladas as boates por dívida até conseguirem pagá-las. É possível pensar que a situação da prostituta poderia piorar na nova cidade se ela não conseguisse uma boa clientela que propiciasse retorno financeiro para que ela pudesse saldar sua dívida.

Não conseguir perceber nas fontes pesquisadas indícios que levassem a uma análise sobre o controle policial em torno do agenciamento de mulheres no Almeida, o que indica que este se processava ao bel prazer dos principais interessados, os agenciadores e as prostitutas. Margareth Rago estudando sobre a prostituição no Rio de janeiro, aborda  o agenciamento das prostitutas estrangeiras para o Rio de Janeiro, as chamadas escravas brancas, analisando o controle policial em torno do lenocínio que tornou-se uma preocupação para certos setores da sociedade carioca[30].

Dona Lina em uma das passagens de seu depoimento fala dos acordos patronais estabelecidos entre prostitutas e agenciadores, deixando claro que as prostitutas moravam nas casas noturnas sem pagar aluguel, entretanto outras despesas como, a alimentação, ficava a cargo da meretriz. Ao agenciador cabia montar e estruturar o local de trabalho para atrair clientes, e as prostitutas incubiam-se de induzir o cliente a consumir o máximo possível dentro da boate, visto que o lucro do proprietário estaria centrado na consumação, pois o dinheiro lucrado numa saída com o cliente era exclusivamente da meretriz[31]. Por conta disto era comum nas boates a existência de truques para aumentar a consumação do cliente, como falsificação de bebidas.

A Srº. Betinho, evidência tais experiências.

“(...) Só que uma pessoa comprava dose de Odiête mais num era Odiête.

Trocava o Montreal, o Odiênte e vendia, mais ai por fora tem muita boate que tomava chá mate, dava chá mate as meninas a noite toda, e os home pagano aquele chá pensano que era uísque[32]”.

 

Os truques que o entrevistado menciona eram usados nas boates, e fazem parte do comércio no mundo da prostituição Maria Dulce Gaspar estudando a prostituição em Copacabana aponta casos semelhantes a estes nestas boates[33].

É possível perceber nos relatos que o agenciamento muitas vezes deixava as meretrizes “subordinadas” financeiramente aos agenciadores, contudo verifica-se que elas tinham “poderes” em suas mãos, visto que o bom desempenho financeiro do cabaré dependeria dos seus truques e táticas de sedução para levar o cliente a consumir.  Tudo indica que quem poderia ficarem uma situação de desvantagens neste jogo de interesses eram os proprietários dos cabarés, pois eles dependiam das meretrizes para o bom desempenho e lucratividade das boates.

3.2 – Relacionamentos : Amores e Desamores.

O mundo da prostituição é percebido por muitos apenas pela ótica da promiscuidade e do erotismo. E os personagens principais deste universo, as prostitutas, foram historicamente associadas por alguns setores à transgressão, “resultando numa imagem destas como agentes de amores patológicos[34]”.

No desenrolar desta pesquisa o constante contato com as fontes permitiram visualizar alguns aspectos do mundo particular destas mulheres, que para além do julgo do senso comum. Tem suas vidas permeadas por experiências românticas, amorosas e muitas vezes conflituosas. Neste universo estudado, as mulheres no exercício do comércio erótico, ficavam propensas a vivenciar uma gama de experiências sociais e sexuais propiciadas pela diversidade de parceiros, contrastando assim, com o suposto comportamento das mulheres ditas “normais”.

No comércio erótico as prostitutas precisavam investir no cliente, era uma questão de sobrevivência financeira, mas este comportamento não se constituía empecilho para que elas vivenciassem experiências amorosas com um único homem, o namorado ou amante, podendo cria expectativas para a constituição de uma família.

No campo profissional cabia à meretriz procurar o seu par ou cliente e este processo de conquista diferenciava-se de acordo com o local que a meretriz se encontrava. Geralmente as mulheres se espalhavam pela casa noturna a espera de fregueses, vestiam-se de roupas chamativas, usavam muitas bijouterias, maquiagens, arrumavam cabelo no salão de beleza, havia uma preocupação muito grande com o visual para a efetivação da sedução, visto que no exercício da prostituição, a aparência física, a estética são atributos extremamente relevantes para chamar a atenção do cliente. Normalmente a prostituta dirigia-se à pessoa de sua preferência e fazia a pergunta chave: Quer companhia para a noite?. Nesta prática do jogo de conquista era comum a inversão dos papéis, já que cabia à mulher efetuar a aproximação com o sexo oposta fazendo o convite e ao homem a possibilidade de recusá-lo[35].

No jogo da sedução e conquista eram comuns as disputas por homens entre as meretrizes. Ocasionalmente era motivo de brigas entre elas, principalmente se o cliente tivesse um alto poder aquisitivo ou fosse “ seu homem”. Eles despertavam nelas a esperança de tirá-las da zona e até mesmo montar uma casa, para quem sabe, construir uma família. Experiência evidenciada no depoimento de Dona Lina:

(...) Tinha delas que dava sorte, que achava os home que gostava, alugava uma casa e botava elas, tem muitas delas aqui mesmo que ganhou casa e outras coisas. Aquela que morou ali, ela ganhou casa, depois se mudou e largou essa vida. Então as que soube aproveitar tem né? [36].

 

Este depoimento sugere múltiplas interpretações. Ao afirmar que algumas prostitutas,” que achava os home que gostava, alugava uma casa e botava elas, o homem aparece como protetor e salvador, aquele que oferece a meretriz a oportunidade de abandonara prostituição e investir numa relação com perspectiva de constituição familiar. Vale salientar que não foram raros os casos de prostitutas que casaram e formaram família. Inclusive estas pessoas hoje não se disponibilizam a falar desta parte de seu passado. Na passagem, “ têm muitas delas aqui que tem casa, teve uma aqui mesmo que ganhou casa e outras coisas”, é possível pensar na figura masculina, enquanto possibilidade da mulher conseguir alguns bens materiais ou proteger-se de problemas futuros. Este relacionamento não passa necessariamente pela formação de uma família, pois neste caso o homem não exerce o papel de marido, torna-se o amante, aquele que estabelece uma relação afetiva-sexual e financeira, e a mulher provavelmente continua exercendo a prostituição.

Nos envolvimentos afetivos das horizontais o homem poderia ainda ocupar um outro papel, o de amante gigolô. Este seria sustentado financeiramente por elas, e neste caso o homem estabelece a relação de dependente financeiro. O Srº. Chico Lira, ao rememorar histórias que apresentam estas características mostrou-se indignado com os homens que assumiam tal postura: “se o cara num tivesse vergonha toparia a mulher ficar dando as coisas a ele”[37], Margareth Rago em sua análise sobre a ligação das prostitutas com o gigolô nos informa que elas procuravam estes relacionamentos como forma de reconstrução de sua própria imagem, um tipo de dependência psicológica, essencial para a sobrevivência em sociedade, assim ela reforça a sua subordinação emocional pelo homem[38].

Dentre os processos crimes consultados envolvendo meretrizes dois chamaram minha atenção porque permitem visualizar alguns aspectos das relações afetivas desta mulheres.

Em 1982 foi movido um processo de lesões corporais pela “mundana” Suzana Brito” contra a “mundana”  Tamara Oliveira. O eixo condutor deste processo foi a disputa por Elias Mattos, ex-amante de Suzana. Esta inconformada por Ter perdido “ seu homem” para Tamara vivia a provocá-la, até que Suzana agrediu-lhe com golpes de lâmina.

A testemunha Maria Silva, presenciou a agressão, e aponta em sua fala alguns elementos deste conflituoso triângulo amoroso.

(...) foi surpreendida com a entrada em sua casa de Tamara, que foi logo agredindo Suzana, taxando-a de “chuparina” e deferindo-lhe vários golpes de gilete em Suzana, afirmando Tamara que assim procedia por haver Suzana na noite anterior passado em frente a sua casa e ter chamado pelo amante de Tamara de “meu bom matinho[39].

 

O duplo interesse pela mesma figura masculina aparece como elemento de tensão de disputa entre duas mulheres. A história deste auto sugere que as meretrizes quando se envolviam emocionalmente com um homem tornavam-se dependentes e possessivas e algumas vezes violentas, como foi o caso de Tamara.

Lembrando Thales de Azevedo “o amor conferia direito à dominação e o ciúme parecia ser um componente pelo qual se demonstrava afetividade[40]. O comportamento de Tamara permite outra interpretação. Ao perder o Amante para Suzana ela não utiliza a violência física, mas a chamada “pirraça”, fazia-se presente utilizando termos que revelam intimidade com Elias Mattos “meu bom matinho”, o que gerou o descontrole da rival. A respeito disso , Gaspar afirma que as atitudes extremistas e escandalosas são mecanismos utilizados pelos grupos estigmatizados em diferentes situações para tentar restabelecer o controle da situação[41].

O outro processo envolvendo relações afetivas das meretrizes, foi o caso da prostituta Vanda Souza e sue amante Juvenal Silva, ela vendo terminado o seu relacionamento, sendo rejeitada pelo amado, deu-lhe um tiro na coluna em plena rua, causando-lhe consequentemente uma paralisia.

Eis a fala do Ministério Público sobre este caso:

(...) Consta nos autos do inquerito policial que a denuncia “ mulher de vida livre”, tinha no baixo meretrício, como seu amante a vítima Juvenal Silva e com este mantinha constantes desentendimentos até que a vítima resolveu por isso desprezá-la, no dia 21 de abril do corrente (1978) cerca das 22 horas veio encontrá-la nas imediações do bairro da Estação nesta cidade, e ai, já ardentemente armada com um revólver calibre 22 , deflagrou a traição atingindo a vítima pelas costas[42].

Neste caso, o comportamento agressivo da meretriz não é justificado pela presença de outra mulher, pois não parece indícios que leve a esta conclusão; a violência aqui foi motivada pela rejeição masculina, causada provavelmente pelas brigas constantes.

É possível perceber nestes autos que as relações amorosas das meretrizes eram carregadas de conflitos, seja por triângulos amorosos, ou pela própria profissão que exigia destas mulheres envolvimento sexual com diversos homens constantemente, deixando-as muitas vezes numa situação conflituosa, pois era preciso dissociarem o sexo profissional do sexo na relação afetiva, para que houvesse um bom andamento nos romances.

Observando as atitudes destas prostitutas nestes dois processos é possível inferir que, ao se envolverem amorosamente elas se tornavam dependentes e possessivas, esta característica talvez se explique pela carência afetiva, pois elas mantinham relações com muitos clientes, no âmbito profissional, e eram raros os envolvimentos afetivos com estes homens.

Casos como o de Vanda Souza indicam que as prostitutas vivenciaram grandes amores em suas vidas como qualquer outra mulher em qualquer outra função.

Neste universo estudado, as práticas sexuais dotavam as prostitutas de experiências singulares no seu cotidiano, porque lidavam diretamente com uma variedade de homens com comportamentos e intenções diversificadas. Estas mulheres consideradas de “todos”, foram levadas a criar mecanismos de auto defesa, pois cabia à elas estarem aptas a sobressaírem de situações embaraçosas postas pela profissão.

Certamente as horizontais ao dedicar o seu corpo para o “comércio da carne”, tornaram-se vulneráveis a violência física. Nesta profissão não é raro o acontecimento de agressão, principalmente por conta da banalização de seu trabalho por certos clientes, que ao dispor dos serviços das “mundanas”, muitas vezes, negavam-se a pagar, mas ela, astuta, defendia-se das mais variadas formas, principalmente usando a violência. Geralmente munidas com lâminas e navalhas, principais instrumentos utilizados na autodefesa, chegavam a cortar aqueles que se negassem a efetuar o pagamento.

No depoimento de Dona Lina ela comenta sobre a atitude das prostitutas diante de uma tentativa de calote: “claro, ai elas queriam cortar, fazer e acontecer, fazia meio mundo de fuar, cortava, furava, quebrava a cabeça”[43].

O descontrole das prostitutas , o uso da violência provavelmente foram utilizados como forma de defesa ou coerção para tentar reverter a seu favor a situação. A fala de Dona Lina fornece elementos que demonstram o uso da violência e do escândalo, comportamento discutido por Gaspar, onde ele aponta o escândalo como alternativa de controle da situação pelas prostitutas, visto que sua imagem está associada à transgressão, a mulher que não respeita nada e ninguém, não tendo nada a perder porque não é uma mulher conceituada. Utilizando estas estratégias ela tente manipular a situação ao seu favor. Neste caso o estereótipo da meretriz não sinaliza apenas condenação, mas poderes[44].

É possível perceber estas características no relato de Dona Lindaura quando relembra o caso da meretriz que cortou com lâmina um jovem de família influente na cidade. 

(...) Um dia ele ai numa casa, ai quando eu cheguei lá só vi sangue dentro de casa e tudo quebrado. Ai eu disse rapaz o que foi isso? Eu num sei dona, eu num sei.

Pequei um lençol, enrolei ele e trouxe pro hospital. Ela deu uma giletada nele aqui que chega a banha abriu.

Ai ele tinha me contado o caso, eu disse e porque rapaz você se serviu da mulé e num quis pagá? Ela tava no direito dela. Se ela num fosse, vocês queria bater que o costume de vocês é esse[45].

 

No mundo da prostituição, era freqüente as meretrizes se depararem com situações como a  descrita acima e ao se defenderem por meio deste mecanismos carregavam o rótulo de escandalosa e mulher “ perigosa”, atributo que mantinha sob ameaça todos os clientes que desejassem fugir ao combinado.  Dessa maneira, pode-se concluir que as prostitutas eram discriminadas profissionalmente não só pelas mulheres de família, mas pelos próprios homens que utilizavam diretamente de suas práticas sexuais.

O relato das pessoas entrevistadas como também os indícios evidenciados  na documentação encontrada sugerem que as meretrizes possuíam códigos de honra e comportamentos que iam de encontro aos velhos tabus veiculados a imagem da “puta’. É perceptível que estas mulheres eram dotadas de personalidade, exigiam ser respeitadas pelos clientes e pela sociedade. No processo de defloramento envolvendo a jovem menor Diana e o jovem Armando, no segundo capitulo , percebe-se elementos que permitem essa reflexão, pois duas mundanas moradoras da zona que prestaram assistência à jovem no dia do estupro, levaram o processo à frente e reivindicaram a retratação da honra, ou seja, queriam o casamento do acusado com a vítima[46].

Observa-se neste auto que as “mundanas”, “putas”, “decaídas”, seja qual for o adjetivo pejorativo atribuído a elas, eram dotadas de caráter, de sentimentos, de senso de justiça. Vendiam o sexo, no entanto tal ato não poderia ser forçado, devendo existir a aceitação de ambos, principalmente em se tratando de uma jovem virgem, como Diana, havendo neste caso, além do desrespeito à mulher, a violação do seu corpo. Dessa forma a perda da castidade da jovem citada acima mobilizou as meretrizes, uma atitude que demonstra que entre elas talvez houvesse uma certa valorização da virgindade para o casamento, além da condenação a uma prática cruel e violenta, o estupro.

O “status” atribuído á mulher virgem para a efetivação do casamento nesta sociedade é indiscutível. Este pensamento está presente na mentalidade dos moradores do Almeida, e como vimos anteriormente até entre as meretrizes. No entanto, as idéias e os conceitos foram se modificando ao longo dos anos e hoje pouca importância pé dada à virgindade. Porém, há 20 e 30 anos atrás as visões eram outras e a meretriz foi  personagem de extrema relevância para a manutenção da ordem familiar. Estas mulheres constituíam um universo plural de idéias, comportamento social e afetivo. Assim, as evidências nos permite afirmar que no mundo da prostituição não existe “vida fácil”.

A vida das horizontais esteve permeada por experiências plurais, despertando nas pessoas uma curiosidade aguçada a respeito dos motivos que as levaram a exercer tal atividade. As meretrizes provenientes das classes populares viam na atividade uma melhoria possível das condições de sobrevivência; na prostituição permanente, o complemento salarial a elas possível, e no ingresso às boates a segurança do teto sobre as cabeças. Nesse contexto , algumas privilegiadas tiveram acesso a homens importantes que lhes asseguraram melhores condições de vida e de trabalho, conseguindo de alguma forma, o sucesso por muitas sonhadas[47]. Muitas delas, nos dias de hoje, preferem silenciar suas memórias, de forma que não removam um passado, talvez indesejado de suas vidas. Isso demonstra que os estigmas e as discriminações não se perderam ao longo do caminho.

FONTES

 ESCRITAS:

Processo de lesões corporais nº. 567/65;

Processo de lesões corporais nº. 1169/73;

Processo de defloramento nº. 1315/76;

Processo de defloramento nº. 1318/81;

Processo de Tentativa de Homicídio nº. 321/79;

Liminar Judicial nº. 1315/80;

PLANO DIRETOR :

Plano Diretor de Conceição do Almeida (1977 –1982) 

ORAIS:

Dona Lindaura dos Santos, 59 anos, ex-dona de bar, reside no Bairro da Estação. Entrevista em 06/03/2002.

 

Sr. Jorge Cruz, 64 anos, freqüentador do local pesquisado, reside na rua São Francisco . Entrevista em 20/05/2003.

 

Dr. Jose de Souza Almeida, 66 anos, advogado e ex-prefeito do período estudado. Entrevista em 06/01/2002.

 

Dona Alice Silva, 64 anos, residente do Bairro no período estudado. Entrevista em 05/04/2006.

 

Dr. Mario de Andrade, advogado. Entrevista em 10/03/2003.

Sr. Altamiro Gomes 60 anos. Residente do Bairro. Entrevista em 20/05/2002.

Dr. Antonio Gomes, advogado. Entrevista em 13/04/2002.

Dona Lina Araújo, 63 anos residente do bairro. Entrevista em 19/07/2002.

Sr. Betinho, ex-proprietário da Boate. Entrevista em 19/07/2002.

Sr. Francisco Lira, residente do Bairro. Entrevista em 22/08/2002.

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  [1] DEL PRIORY, Mary. A mulher na história do Brasil, 6ª ed. São Paulo:

Contexto, 1994. p. 16.

    [2] RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar. Brasil (1890 -1930).

Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1985, p. 82.

           [3] Idem. Os prazeres da noite. Prostituição e códigos da sexualidade em São Paulo (1890 -1930). Rj: Paz e Terra, 1991. p.41.

[4] Ibdem.p.189.

[5] Entrevista do senhor Altamiro Gomes, 60 anos, residente do bairro em 20/05/2002.

[6] Termo utilizado por Nélia de Santana op cit., para se referir as prostitutas.

[7] FOCAULT, Michael. História da sexualidade 2. O uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

[8] SANTANA, Nélia de. Prostituição feminina em Salvador, (1900-1940). Dissertação de mestrado, UFBA, 1996, P. 56.

[9] Op cit. Nota 30.

[10] SAMUEL, Raphael. História oral. Revista Brasiliense de história. São Paulo. Vol. 19. fev. 1990, p. 237.

[11] Op cit. Notas 30 e 34.

[12] VASCONCELOS, Vânia Nara. Evas e Marias em Serrolândia: Representações da mulher numa cidade do interior (1960-1990).

[13] Advogado entrevistado em 13/04/2002.

[14] Op cit. Nota 33. p 152.

[15] COSTA, Jurandi Freyre. Ordem Médica e Ordem Familiar. Rio de Janeiro: Ed. Graal. V.5, 3ª ed. P. 256.

[16] Op cit. Nota 15.

[17] SANTANA, Nélia. Op cit. Pág. 54.

[18] Processo de lesões corporais cód.10 n.º 1011/1974.

[19] Idem.

[20] Termo encontrado nos processo consultados utilizados para se referir às casas de prostituição.

[21] Op cit. Nota 43.

[22] RAGO, Margareth. Op cit. Apud Viveiros de Castro. Delitos contra a honra da mulher. Ed. João Lopes Cunha, 1898, p.16.

[23] MALUF, Marina. Ruídos da Memória. São Paulo. Siciliano, 1985. p. 49.

[24] Entrevista concedida por Dona Lina Araújo, 63 anos, residente do bairro, em 19/07/2002.

[25] Entrevista do Senhor Betinho, ex-proprietário da Boate, em 17/06/2002.

[26] (SANTANA, 1996, p. 35)

[27] SANTANA, Charles D’Almeida. Fartura e Ventura camponesa: Trabalho, cotidiano e migração; Bahia, 1950-1980. São Paulo, ANNABLUME, 1998.

[28] Op cit. Nota 49.

[29] Op cit. Nota 50.

[30] (RAGO, 1985, p. 260)

[31] Op cit. Notas 49 e 53.

[32] Op. Cit. Notas 50 e 54.

[33] (GASPAR, 1994, P. 28).

[34] (SANTANA, 1996, p.10)

[35] (GASPAR, 1994, p. 97)

[36] Op cit. Notas 49, 53 e 56.

[37] Depoimento do senhor Franciso Lira, residente do bairro, em 22/08/2002.

[38] (RAGO, 1985, p. 279)

[39] Processo de lesões corporais n.º 1015/79.

[40] AZEVEDO, Thales. As regras do Namoro à antiga. Ática, 1996. p.45.

[41] (GASPAR, 1994, p. 38)

[42] Processo de tentativa de homicídio n.º 321/79.

[43] Op cit.. Nota 49.

[44] (GASPAR, 1994, p. 99)

[45] Op cit. Dona Lindaura (03/07/2002)

[46] Processo de lesões corporais nº 1315/80.

[47] MENEZES, Lená Medeiros de. Dancing e Cabaré: Trabalho e disciplina na noite carioca (1930 – 1940). In:Horizontes plurais. Ed. 34, 1998, p. 50.

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