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Portado,Por: Evaldo da Anunciação
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Segundo a pesquisadora Maria Dulce Gaspar[1], em alguns casos, o homem procurar casa noturnas para se socializar o que pode ocorrer através de bate-papo informal ou erótico com garotas de casas noturnas, algo que geralmente não pratica com mulheres de seu meio social. A boate da Luz Vermelha não funcionava apenas como local de buscas de satisfação sexual, representava espaço de sociabilidade diversa onde havia, sobretudo troca de informações. Segundo Margareth Rago, o mundo da prostituição não gera apenas a infração dos valores convencionais, mas sim um modo diferente de trabalho e diversão. Dona Lindaura em sua fala evidencia o cotidiano vivido na boate da “Luz Vermelha”[2]: Ah , a Luz vermelha era tipo um clube (...) só entrava gente de maior, a gente fazia festa que tinha rainha e princesa, nois fazia o São João, era bonito ai. \tinha sanfoneiro, (...) tinha rinha de galo, (...) as pessoas vinham de todo lugar, como festa mesmo de clube (...) eles vinha pra ai pra aliviar a cabeça. Através desta fala percebe-se que a boate da Luz vermelha era um espaço onde se estabeleciam múltiplas relações sociais, os freqüentadores buscavam lazer, sexo e troca de informações. O prostíbulo oferecia prazeres e sensações que os homens não encontravam no cotidiano. No decorrer da pesquisa tive a oportunidade de conversar com várias pessoas que se dispuseram a contar-me suas experiências vivificadas no meretrício do Almeida. Certamente, o pesquisador que trabalha com a história local tem uma visão mais imediata do passado, pois ele está contentemente deparando-se com o passado nos espaços mais diversos que cerca o cotidiano local. Vale ressaltar que a história oral é dos instrumentos mais adequados para se trabalhar com a história local e norteou esta pesquisa na medida que evidencia o dia-a-dia do meretrício com uma riqueza de detalhes que muitas vezes não é perceptível no documento escrito. Inspiradas nestas idéias de Raphael Samuel não busquei nos relatos orais apenas preencher vazios deixados pela documentação escrita, mas perceber as experiências individuais de cada depoente, observando quais os caminhos enveredados por cada um deles em diferentes relatos acerca da prostituição no Bairro da Estação. Um depoimento importante nesta pesquisa foi o do Sr. Jorge, que participou ativamente da vida do meretrício como funcionário. Durante a entrevista o Sr. Jorge rememorou o período áureo da Luz vermelha, as festas, mas não teceu comentários negativos, deixou transparecer que existia uma suposta harmonia entre a boate, cliente meretrizes e “famílias respeitáveis” da cidade. Um outro atrativo de cliente para a Luz Vermelha eram as rinhas de galo realizadas nas suas dependências: “Nos dias que havia campeonato de rinha de galo o “brega” se agitava, pois o evento atraía um número elevado de homens que para lá se dirigiam em busca de diversão e sexo.”[3] Estes eventos e festas promovidos no Meretrício fizeram dele um local de intensa circulaçãode hábitos e costumes diversificados, pois era freqüentada por pessoas de todos os grupos sociais desde o homem do campo ao da cidade, e neste contexto o “brega” viveu experiências plurais. Por mais de uma década a Luz Vermelha conseguiu manter-se como point na zona da Estação.
1.2 – O Brega do Auge ao Declínio.
Os moradores da zona de prostituição do Almeida conviveram na década de 1960 e início de 1970, com a agitação das festas promovidas na boate. Outrossim, apesar desta efervescência produzida nas noitadas da Estação e da popularidade que se constituiu em torno desta localidade tratava-se de uma área estigmatizada e esquecida pelas lideranças da cidade, especialmente no que diz respeito a urbanização e saneamento básico. Apesar da zona possuir uma localização geográfica privilegiada ( ver anexo 1 Pág.), por estar muito próxima ao centro da cidade, recaia sobre ela o estigma de “área decaída”, já que , era habitada por meretrizes e famílias de baixa renda. No entanto, o perfil do morador começou a mudar com intenso fluxo migratório de famílias com poder aquisitivo mais elevado em fins dos anos 1970, se comparado aos moradores tradicionais. Estas mudanças são perceptíveis na narrativa do entrevistado o Sr. Jorge, que ao deixar aflorar suas lembranças procura estabelecer relação entre o presente e o passado do bairro.
(...) O Almeida foi crescendo e foi aquele lugar que aquelas casas o pessoal foi comprando, fazendo casa de morada. Você vê que hoje tá tudo mudado, só falta ter prédios, onde era o brega, hoje é uma casa de família. Foi comprando aquelas casa velhas, derrubando, famílias morando. Esta relação que o narrador faz com as temporalidades permite um dialogo com Alistar Thomson, quando ele sugere que : “ A memória gira em torno da relação passado-presente, e envolve um processo contínuo de reconstrução e transformação das experiências lembradas”.[4]
Certamente o meretrício foi cedendo espaço a expansão da cidade. O aumento demográfico e o desenvolvimento de outras atividades comerciais no bairro da Estação e nas imediações começaram a configurar um novo quadro econômico social em meio a prostituição, e os recentes moradores e comerciantes que ali se estabeleceram não se conformavam com o esquecimento das autoridades àquela região e reivindicavam melhores condições de vida para o bairro(saneamento básico, água e outros). É possível que o perfil dos novos moradores tenha sido um dos fatores que contribuíram para a concretização das reformas urbanas que foram empreendidas no bairro.
(...) tentamos fazer alguma coisa ali para melhorar o aspecto, o saneamento dali e também a urbanização que era necessário, era uma zona abandonada por que se tinha o estigma de área de prostituição na cidade (...) e também por que aquele bairro já estava mais centralizado para a cidade.[5]
O aumento demográfico ocorrido na cidade em fins da década de 1970 e na década de 1980, em torno de 15%, ocasionado principalmente pelo crescimento das plantações e armazéns de fumo, que levou a cidade a despontar na década de 1980 de um breve desenvolvimento econômico. Estas transformações que se processaram na cidade de Conceição do Almeida neste período levaram as autoridades a elaborarem um planejamento urbano para a cidade. E foi na administração do prefeito o Sr. José de Souza Almeida (1977-1982), que se colocou em prática o plano diretor visando a expansão urbana da cidade, no qual estava inclusa a área que compunha o meretrício e as adjacências. A observação do mapa (página 19) do plano diretor, possibilita, visualizar as áreas inclusas no projeto de expansão urbana da cidade. O interesse da administração em melhorar o aspecto urbano e consequentemente o social desta área pode ser percebido também , pela ótica do comércio da cidade. As obras de pavimentação realizadas no bairro da Estação e nas adjacências, aliadas ao crescimento demográfico vivenciado na cidade, contribuíram para o inchaço populacional ocorrido MAPA DO PLANO DIRETOR DA CIDADE (1977-1982)
nesta área. E em meio a estas alterações configurou-se um novo perfil social, cultural, e econômico na zona do meretrício. A prostituição no meretrício precisava ser relegada ao passado. No entanto este processo não ocorreu instantaneamente, resistia ao processo cultural do bairro não só como elemento do passado pois seus sedimentos persistiam no presente. O território da zona estabelecia aos poucos novos contatos, no qual cruzavam moralidades contraditórias, pessoas que passaram a dividir quotidianamente o mesmo espaço urbano, mas com modos de vida completamente opostos.[6] Ao que parece a administração do Dr. José de Souza Almeida, não teve a intencionalidade de acabar diretamente com a prostituição. Mas, as reformas urbanas contribuíram indiretamente para o declínio gradativo da prostituição na zona, pois a localidade passou a ser constituída por casas comerciais e residenciais repressoras da prostituição. Percebe-se que não houve no Almeida um projeto reformador visando retirar a prostituição do bairro da Estação e alocá-la em uma região distante do centro da cidade e das “famílias respeitáveis”; como ocorreu no Rio de Janeiro no início do século XX, no qual configurou-se uma política de repressão e segregação das prostitutas pobres do Mangue, com o objetivo de limpar o centro comercial modernizado da cidade. Houve no Almeida um embate entre uma população que crescia e avançava sobre o meretrício. O cenário do bairro da Estação dera lugar a outras atividades e outros atores sociais menos amistosos em relação à prostituição existente no local. O sucessor administrativo do Dr. José de Souza Almeida, foi o Sr. Joel de Souza neiva (1983-1988), e em sua administração ele priorizou projetos reformadores com características modernizantes. Este traço pode ser percebido através da construção e reforma de praças e jardins. Estes empreendimentos causaram alterações no cotidiano da cidade, tanto na área de lazer como na comercial. Os projetos realizados na gestão da Srª. Lúcia Borges Coni, resultaram no crescimento do centro comercial e de lazer da cidade e nas imediações da zona, culminando na valorização daquela área. Os bares que dinamizavam as noites na zona de prostituição não tinham encontrado mais problemas com a vizinhança até então. Mas o novo contexto ao qual estava inserido: novos moradores com poder aquisitivo mais elevado, aumento da circulação de pessoas que transitavam naquelas ruas para se divertirem irem ao trabalho, escola e praças, contribuíram para o surgimento de novos comportamentos, valores e idéias que intensificavam o controle nos bares do bairro da Estação, no sentido de acabar com o barulho que ia até altas horas da noite. A entrevistada Dona Alice, fala sobre essas mudanças. “(...) eu sei que tinha esses abaixo assinado né, pra acabar essas festas que tinha aqui, porque tava crescendo”.[7] Não tive acesso aos abaixo assinados que a entrevistada mencionou. As reclamações por conta do barulho e do comportamento das “mundanas” nos bares e na boate eram motivos constantes de queixas contra os abusos cometidos no meretrício, ficando a cargo da polícia o controle através de blitz, e de liminares judiciais. Exemplos: CONSIDERANDO os abusos sonoros (horários e volume) que vêm sendo cometidos no baixo meretrício e congênere, por parte de proprietários de bares e boates, desta cidade de Conceição do Almeida. CONSIDERANDO o elevado número de queixas que vêm sendo apresentado a esta divisão regional de famílias residentes naquelas adjacências contra esses e outros abusos que diariamente ali são praticados.[8] É interessante perceber tanto na fala de Dª. Alice, como na liminar judicial demostrar a preocupação gritante dos moradores com o cotidiano barulhento dos bares do baixo meretrício. A repulsa causada na vizinhança da Rua do brega não pode ser limitada apenas a questão dos abusos sonoros, perpassa sobretudo pelos valores morais presentes na mentalidade dos moradores, muito comuns nas cidades interioranas. Robert Moses Pechaman analisando Baudelaire sugere que “as classes dominantes fundam o seu poder na cidade com intervenções no espaço no sentido de coibir “usos e abusos” e principalmente, fundam seu poder por meio de representações que legitimam o que são os bons usos e o que seriam os abusos”. Mas, será que estes discursos moralizantes e excludentes eram regras para todas as famílias que viviam nas proximidades, como deixa transparecer na liminar judicial? A entrevistada Dona Alice rememora o cotidiano de alguns moradores de baixa renda do bairro.
(...) Agora não se incomodava porque a vez uma vinha dava umas roupas pra lavar e já era um ganho. Porque a vez tinha lavagem de roupa e a gente já tinha aquelas pessoa ali que tinha necessidade (...) num era família prá dizer vai incomodá (...) ai ninguém antigamente ia chegar dizendo vou tirar essa zuada , porque deixava de ganhar o dela, como muitas delas ai que vivia disso. Gerava dinheiro pra elas[9].
Ao entrecruzar estas fontes percebe-se tensões, os conflitos vividos entre os moradores do bairro. Ao que parece, algumas famílias de baixa renda conviviam com a prostituição sem maiores problemas devido a cumplicidade que se estabelecia no modo de vida destas pessoas, talvez porque estas beneficiavam-se com os serviços prestados às meretrizes. Não quero dizer com isso que estas famílias não desenvolveram códigos morais, entretanto, a luta diária pela sobrevivência tornava-se um imperativo. Talvez, este fosse um dos pontos motivadores para a convivência sem maiores conflitos. As prostitutas, em sua maioria exerciam o meretrício por uma questão de sobrevivência, e ao mesmo tempo gerava trabalho para as “mulheres de família” do bairro que precisavam ajudar no orçamento familiar. A comercialização do sexo feminino sem maiores problemas, enquanto o baixo meretrício esteve segregado, sem maior aproximação com as “famílias respeitáveis”. Esta pretensa cordialidade foi quebrada com o crescimento populacional ocorrido nas imediações do baixo meretrício. Mas, não se pode atribuir apenas à urbanização e ao crescimento demográfico a decadência do meretrício, pois, com o crescimento da cidade foi mudando os hábitos da população, que passou a Ter contato com valores culturais característicos do avanço da urbanização. As visões sobre o sexo foram modificadas, de certa forma diminuindo velhos tabus como a preservação da virgindade para o casamento; novos comportamentos fortemente influenciados pela revolução sexual, que trouxe novas atitudes a cerca dos relacionamentos sexuais e uma diversidade de músicas que entravam em choque com o modelo vigente. Estas novidades levaram o jovem almeidense a ter outra percepção acerca da moral sexual, influenciada pelas mudanças que já vinham acontecendo em outras regiões. Segundo Janaína Amado ao realizar um estudo regional é preciso estar atento aos acontecimentos mais gerais que podem influenciar no local para não correr o risco de desarticulação entre o global e o local, visto que a região não está “solta” sem ligação com o global[10]. Em várias entrevistas realizadas no decorrer desta pesquisa foi possível perceber semelhantes e diferentes interpretações atribuídas às transformações que estavam ocorrendo neste período de relaborações dos costumes, como é o caso do Drº. Mário de Andrade.
(...) acho que foi os costumes que modificaram (...)mas sou da década de 1960, minha turma né, naquela época a gente ia pra festa dançar com as namoradas e era outra coisa (...) depois da festa a gente não tinha essa facilidade que hoje os jovens tem acesso com a namorada, então normalmente os rapazes iam lá praquela região, nós chamava de “Luz vermelha”(...) mas, veja com esta revolução sexual, que houve na década de 1960 chegou essa revolução no Almeida e acredito também que estimulado pelo sexo, valorizando muito este sexo de maneira desordenada, e as músicas também, a maioria das músicas estimulando o sexo.[11]
A fala do entrevistado dá uma dimensão da influência que teve a revolução sexual nos valores morais dos jovens almeidenses. No decorrer da entrevista ele sinaliza que na década de 1960 a revolução sexual estava acontecendo, no entanto, ela não foi sentida simultaneamente no Almeida, pois o próprio entrevistado deixa transparecer que ele e os jovens daquela década não sofreram a influência da revolução sexual. Esta influência vai se acentuar na década de 1980. Talvez a pouca circularidade de informações possa ser atribuída ao fato de tratar-se de uma cidade interiorana, na qual a difusão da mídia (televisiva) era pequena, visto que, na década de 1960 eram poucas as residências que possuíam televisão e rádio. Provavelmente um dos fatores contribuidores da difusão dos novos valores foi o acesso esses meios de comunicação nas décadas seguintes. O progresso da indústria tabagista teve peso significativo, pois além de gerar emprego aumentando o poder de compra do almeidense, atraiu moradores de outras regiões com novos costumes e valores. Houve uma quebra naquilo que lembrava o tradicional, os jovens aspiravam novos costumes influenciados pelos hábitos dos grandes centros que chegaram até o Almeida e a cidade perdia aos poucos os ares “provincianos”, aspirando “modernidade” e o “desenvolvimento”[12]. Com a junção dos diversos fatores já referidos, o bairro da Estação viu-se então desmanchar, primeiro pelo fechamento da boate da Luz vermelha que passou pelas mãos de tantos donos, segundo pelas constantes alterações ocorridas na estrutura da cidade, no comportamento e forma de pensar das pessoas que construíram esta sociedade. Certamente, o bairro da Estação teve participação intensa na História do Almeida, seja pelo seu papel que possibilitava a manutenção dos comportamentos masculinos e da preservação da virgindade das “moças de família” ou como espaço de grandes acontecimentos, envolvendo as pessoas que faziam dali o seu viver. A boate e os bares que compunham o meretrício agitavam as noites do Almeida, produziam um local privilegiado pela riqueza de experiências, muitas vezes ignoradas pelos da “ boa sociedade” [1] GASPAR, Maria Dulce. Garotas de programas – prostituição em Copacabana e Identidade Social. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, p.36. [2] Depoimento de Dona Lindaura dos Santos, 59 anos, ex-dona de bar, residente no bairro da Estação, concedido no dia 06/03/ 2002. [3] Entrevista concedida em 20/05/2004 pelo senhor Jorge Cruz, 64 anos, freqüentador do local pesquisado, residente na rua São Francisco. [4] Ibdem. [5] Entrevista realizada no dia 06/01/2002 com o Dr. José de Souza Almeida, 66 anos, advogado e ex-prefeito do período estudado. [6] ARANTES,Antonio. A Guerra dos Lugares. P. São Paulo, Scipione, 1996. P 27. [7] Entrevista concedida em 05/04/2006, por Dona Alice Silva, 64 anos, dona de casa, residente do bairro. [8] Liminar judicial n.º 01/70. [9] Depoimento concedido no dia 05/04/2006 por dona Alice, 54 anos, residente no bairro da Estação, no período estudado. [10] AMADO, Janaina. História e Região: Reconstruindo e conquistando espaços. In: SILVA, Marco (coord.). República em Migalhas. História Regional e Local. [11] Entrevista do advogado Mário de Andrade em 06/05/2006. [12] WILLIANS, Raymond. O campo e a cidade na história e na literatura. São Paulo: Cia das Letras, 1990. p. 397.
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