COLUNA-Kassab tem sim o que oferecer ao PT

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Published on: January 27, 2012

(As opiniões expressas no texto abaixo são do colunista)

Por Fábio Santos

SÃO PAULO, 27 Jan (Reuters) – No sábado, o conselho político da pré-campanha do ex-ministro Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo vai debater se prosseguirão ou não as conversas para uma eventual aliança do PT com o PSD do atual prefeito da cidade, Gilberto Kassab.

Por ora, dizem petistas paulistanos, apesar da polêmica que a proposta defendida pelo ex-presidente Lula tem provocado no partido, a tendência é manter as portas abertas.

A razão é simples: a despeito do que dizem alguns analistas, o prefeito tem sim o que oferecer ao candidato petista caso a aliança venha a se realizar. É natural que haja resistências, e estas serão mais estridentes quanto mais forte for a possibilidade de o pacto entre os opositores ser celebrado.

As declarações de Haddad, para quem o prefeito está no fim da fila dos possíveis aliados e a coligação é apenas uma possibilidade difícil, são mais uma demonstração de cautela e valorização da sua posição que uma oposição radical à ideia.

Como o próprio Kassab disse a esta coluna, ele pode dar ao PT a garantia de “fazer mais com menos risco para ser bem-sucedido”. É preciso, porém, esclarecer o que as palavras do prefeito significam.

“Qualquer aliança agrega”, diz Kassab, mencionando alguns fatores: bases eleitorais, bancada de vereadores e o que chama de “realizações da (sua) gestão”.

De saída, o PSD parece não acrescentar muito à candidatura de Haddad, à diferença do PMDB, que poderia dobrar o tempo de TV do petista. Sozinho, o PT deve ter pouco mais de quatro minutos em cada bloco de 30 minutos de propaganda (os 50 segundos garantidos a todos os candidatos, mais estimados 3min26s a que tem direito).

Com o PMDB, que tem como pré-candidato o deputado Gabriel Chalita, o partido ganharia mais outros três minutos. Se trouxer outras legendas da base do governo federal (PR, PDT, PCdoB e PRB), somaria quase mais quatro minutos.

Como foi criado após as eleições para deputado federal, cuja votação serve de parâmetro para a definição do tempo de propaganda eleitoral, o PSD tem direito apenas a 50 segundos (o partido ainda luta na Justiça para reverter essa situação).

Contudo, eleições não se resumem à propaganda, por mais que esta tenha importância. A máquina da prefeitura sempre tem peso para influenciar determinadas clientelas e para atrapalhar candidatos. Além disso, o PSD conta com dez vereadores na Câmara paulistana, bancada inferior apenas à do PT, que tem 11. É grande, portanto, a chance de, eventualmente eleito, Haddad contar com ampla base no parlamento municipal.

Kassab também é tido como um patinho feio em termos de popularidade. Afinal, sua avaliação nunca esteve tão mal: segundo a última pesquisa Datafolha, 40 por cento consideram sua gestão ruim ou péssima.

Ocorre que o prefeito ainda tem 20 por cento de ótimo e bom, o que não é desprezível para o PT, que conta na capital paulista historicamente com uma base eleitoral que lhe dá, de saída, 30 por cento dos votos. Outros cerca de 30 por cento costumam votar contra os candidatos petistas, restando a estes buscar a maioria no restante do eleitorado.

Considerando que a avaliação positiva de Kassab se apóia principalmente nos eleitores que declaram preferir o PSDB (31 por cento de ótimo e bom) ou outros partidos (também 31 por cento), o prefeito tem condições de agregar votos justamente no eleitorado resistente ao PT. Note-se ainda que 38 por cento avaliam a gestão de Kassab como regular, o que não é um índice de rejeição completa.

SOBREVIVÊNCIA POLÍTICA

A proposta de Kassab de aliar o PSD ao PT tem causado polêmica entre os petistas e sido alvo de ataques constantes na imprensa.

Mas é preciso reconhecer que, apesar das aparências, ela não tem nada de contraditório ou incoerente. Claro, desde que observada pelas lentes da lógica que tem vigorado na política brasileira, a da conveniência.

“Aliança se faz olhando para frente”, diz Kassab quando questionado a respeito do fato de o PT ter sido a principal pedra no sapato de sua administração. Camaleão político, o prefeito chega mesmo a dizer que uma composição com os petistas “tem naturalidade”.

Em princípio, a declaração pode ser vista apenas como cínica. Mas não se pode dizer que não tem base na realidade. Hoje, o PSD, apesar de não estar formalmente na base de Dilma Rousseff, tem votado consistentemente a favor dos projetos da presidente. O partido só não aderiu ao governo federal porque internamente não tem ainda condições de fazê-lo.

“É difícil formalizar a adesão. O partido acabou de nascer. E a promessa a muitos dos que vieram é de que a legenda seria independente até 2014″, diz Kassab.

O primeiro objetivo de Kassab ao se apresentar a Lula foi, é claro, pressionar o PSDB. O ideal para o prefeito seria ter um acordo com o governador Geraldo Alckmin que incluísse lançar o vice-governador Guilherme Affif, do PSD, com um tucano como segundo nome da chapa. Em troca, Kassab se comprometeria a apoiar a reeleição de Alckmin em 2014, talvez com ele próprio como vice, com vistas a concorrer ao Palácio dos Bandeirantes quatro anos depois.

A aliança com o PSDB tornou-se quase impossível, admite o prefeito. Ele também já não considera provável que o único candidato tucano ao qual daria seu apoio, José Serra, vá se lançar.

A aliança com o PT tornou-se assim uma das melhores saídas para evitar uma derrota nas urnas. Sozinho, seja o candidato Afif, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles ou o atual secretário municipal da Educação, Alexandre Schneider, o PSD provavelmente nem passaria do primeiro turno, e a gestão de Kassab seria desmontada pelos candidatos na propaganda eleitoral. Mesmo o PSDB, que teria dificuldades para cuspir no prato em que comeu, seria crítico ao prefeito.

A coligação com o candidato petista, por outro lado, teria o condão de preservar a abalada imagem de Kassab e aproximá-lo de vez do governo federal. O prefeito ainda continuaria com grandes dificuldades para perseguir seu objetivo final, o governo do Estado, já que este é um posto mais que desejado pelo PT. Sua sobrevivência política, porém, estaria menos ameaçada.

 

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