André Petry, de Nova York
Divulgação
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APOCALIPSE POPULAR
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Uma das cenas da catástrofe planetária no filme
2012: a profecia ganhou as ruas
Os dez
dias que sumiram
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O calendário maia, dizem os apocalípticos, prevê o
fim do mundo para o dia 21 de dezembro de 2012.
Calendários, no entanto, são excelentes instrumentos
para orientar sobre o compromisso da próxima
quarta-feira, mas são um embuste para prever o
futuro. As diversas civilizações – não só os maias,
mas os egípcios, os chineses – criaram os próprios
calendários, uns com base no Sol, outros com base na
Lua, uns mais longos, outros mais curtos, mas todos
sempre foram expressão da inclinação humana de
atribuir ordem ao caos. Com o calendário, criamos a
sensação de ordenar os dias, os meses e os anos num
sistema cronológico racional e matematicamente
preciso. Só que a natureza não é assim. Num
delicioso livro lançado às vésperas do ano 2000, O
Milênio em Questão, no qual se baseia este texto, o
grande paleontólogo americano Stephen Jay Gould
(1941-2002) escreveu: "A natureza, aparentemente,
pode fazer um esplêndido hexágono, mas não um ano
com um belo número par de dias ou rotações lunares".
E, com o humor que lhe era peculiar, acrescentou: "A
natureza se recusa teimosamente a trabalhar com
relações numéricas simples justamente naquilo em que
sua regularidade seria mais útil para nós".
Ou seja: os ciclos naturais dos dias, meses e anos
não são redondos, pares perfeitos. São frações,
números quebrados, e aí começa um problemão. Um ano
– tempo que a Terra leva para dar uma volta completa
em torno do Sol – não dura 365 dias. Dura 365 dias e
algumas horas. Para facilitar a conta, arbitramos
que um ano dura 365 dias e seis horas, ou um quarto
de dia. Mas, como não podemos ter um quarto de dia,
a cada quatro anos temos o ano bissexto, com 366
dias, o que recoloca nosso calendário em sintonia
com o ano solar. Porém, a natureza, na sua magistral
indiferença para com nossos números inteiros, na
realidade não faz um ano de 365 dias e seis horas.
São 365 dias e 5 horas, 48 minutos e 45,97 segundos!
Isso quer dizer que o acréscimo do 366° dia cobre o
descompasso ocorrido em cada quatro anos, mas
imprecisamente. Como o tal descompasso não era de
exatas 24 horas – era de 23 horas, 15 minutos e 3,88
segundos –, o ajuste feito pelo ano bissexto ainda
nos deixa com um pequeno atraso em relação à
natureza: um atraso de 44 minutos e 56,12 segundos a
cada quatro anos. É pequeno, mas aumenta com o
tempo. Em vinte anos, o atraso soma quase quatro
horas. É tolerável. Em 100 anos, passa de dezoito
horas. Começa a complicar. À medida que vai
avançando, passa a embaralhar as estações do ano, a
época certa para plantar, para colher, para pescar.
Vira um, digamos, apocalipse.
Em 1582, o calendário da época, que vinha desde os
tempos do Império Romano, já acumulava um atraso de
dez dias em relação ao ano solar. Era demais,
inadmissível. O papa Gregório XIII convocou então
uma comissão de matemáticos para dar uma solução ao
problema. Chegou-se a uma saída formidável. Com seu
poder incontrastável sobre o destino da humanidade e
do universo, o papa decretou o sumiço dos dez dias.
Simples assim. Riscou fora. A humanidade foi dormir
em 4 de outubro e acordou em 15 de outubro. O
período de 5 a 14 de outubro de 1582 não existiu,
jogando algumas dúvidas para as calendas gregas. O
que aconteceu com quem fazia aniversário no período
suprimido? E quem tinha conta para pagar num dia que
sumiu? Pagou juros? Queixou-se ao papa? Resolvida a
diferença de dez dias, a comissão achou outras
soluções criativas. Para evitar que o descompasso
dos anos bissextos voltasse a se alargar a longo
prazo, estabeleceu que a cada século múltiplo de 100
– 1800, 1900, 2000, por exemplo – não haveria ano
bissexto. Excelente. Mas a retirada do 366° dia
seria provisoriamente excelente porque criaria um
desequilíbrio lá adiante. Então, inventou-se outra
compensação: de quatro em quatro séculos, o ano
bissexto volta.
Parece confuso, mas é assim que funciona até hoje:
de 100 em 100 anos, cai o ano bissexto; de 400 em
400, reinstala-se o ano bissexto. Com esses avanços
e recuos, somas e diminuições, nosso calendário
consegue dançar num movimento parecido com o balé
irregular dos ciclos naturais. (Não é idêntico
porque o calendário gregoriano ainda se distancia do
ano solar em 25,96 segundos. É irrisório, leva mais
ou menos 2 800 anos para chegar a um dia inteiro,
mas perfeito é que não é.) Diante de tantos ajustes,
a velha e boa folhinha de parede é um medidor
preciso para o compromisso de quarta-feira, mas, com
suas imprecisões em relação aos eventos
astronômicos, não é exatamente boa para embasar
previsões futuras.
Para fugir das confusões do ano solar, há quem
prefira as previsões com base no mês lunar – tempo
que a Lua leva para dar uma volta completa em torno
da Terra. Na verdade, não resolve nada. Apenas se
troca de problema. Para facilitar nossos cálculos,
arbitramos que a Lua leva 29 dias e meio para dar a
volta na Terra. Mas, na realidade, a Lua leva,
precisamente, 29,53 dias – de novo, a caprichosa
fração da natureza. Assim, se um ano tem doze meses
e cada mês corresponde a uma lunação, a conclusão
matemática é que um ano tem doze lunações. Era para
ser, mas não é. As doze lunações, indiferentes à
ordem humana, não levam 365 dias para se realizar,
mas somente 354 dias, uma debochada diferença de
onze dias em relação ao ano solar...! Por isso, é
preciso que... Bem, diga-se apenas que é preciso
recorrer à inventividade humana para conciliar o
calendário e o universo. Fica claro que qualquer
profecia anunciada com base em calendários, solares
ou lunares, maias ou gregorianos, é mais ou menos
uma brincadeira, pois nossas fórmulas numéricas, tão
regulares e ordenadas, não traduzem a exata natureza
dos eventos astronômicos, tão caóticos e
irregulares. É quase como querer tirar a raiz
quadrada do mar.