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Soldados da ONU usaram gás lacrimogêneo
e gás pimenta nesta terça-feira contra
haitianos que disputavam
desesperadamente a comida distribuída em
frente às ruínas do Palácio
Presidencial, duas semanas depois do
terremoto que devastou Porto Príncipe.
"Eles não são violentos, só
desesperados. Só querem comer", disse o
coronel brasileiro Fernando Soares. "O
problema é que não há comida para
todos."
O Brasil lidera a Minustah, missão de
paz da Organização das Nações Unidas
(ONU) no Haiti.
Os Estados Unidos e a ONU tentam dar
alimento, abrigo e atendimento médico a
centenas de milhares de sobreviventes,
muitos deles feridos.
Porém, muitos haitianos se queixam de
que ainda não receberam a ajuda
internacional que chega em grande
quantidade ao país desde o terremoto de
magnitude 7,0, que matou até 200 mil
pessoas.
Algumas
operações de
distribuição de
alimentos na capital
resultam em tumulto. |
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Nesta terça-feira, no Palácio
Presidencial, soldados da ONU, armados
com pistolas, entregavam sacos de arroz
com a bandeira dos EUA. Caminhões
blindados formavam um cordão para
controlar a multidão, e as pessoas eram
submetidas a revistas.
"Ontem nos deram arroz, mas não foi
suficiente. Havia gente demais", disse
Wola Levolise, de 47 anos, que está
refugiada com seus nove filhos em um
acampamento improvisado.
Os EUA já despacharam mais de 15 mil
militares para o Haiti. Cerca de 4.700
estão em terra, e os demais ficaram em
navios na costa.
Os militares dos EUA dizem que devem
reduzir gradativamente seu envolvimento
nos próximos três a seis meses, conforme
outras organizações internacionais
assumirem um papel maior nas tarefas
humanitárias e de segurança. Antes
disso, os soldados norte-americanos
devem ajudar na construção de um
hospital com 5.000 leitos.
AOS POUCOS, NORMALIDADE
Há sinais de que a arruinada capital vai
lentamente voltando à vida normal. Um
caminhão municipal de lixo recolheu
pilhas de detritos em um acampamento
perto da igreja de São Pedro, e uma
longa fila se formava diante de uma
agência bancária no bairro de
Petionville. Na rua Geffrard, havia uma
feira lotada e caótica.
A operação humanitária vem dando lugar
aos trabalhos de recuperação, e as
autoridades pretendem transferir nesta
semana 400 mil pessoas de 400
acampamentos precários espalhados pela
cidade para aldeias temporárias, feitas
com barracas, nos arredores de Porto
Príncipe.
O ministro da Saúde, Alex Larsen,
informou que 1 milhão de haitianos
ficaram desalojados na região de Porto
Príncipe. O governo tem tendas para
abrigar 400 mil pessoas nos novos
assentamentos temporários, e precisaria
de milhares de outras.
O primeiro-ministro, Jean-Max Bellerive,
fez um apelo urgente a doadores reunidos
na segunda-feira em uma conferência em
Montreal, no Canadá, para o envio de 200
mil barracas adicionais.
Ainda há tremores quase diários em Porto
Príncipe, e já se discute a
possibilidade de que a cidade tenha de
ser reconstruída em um local mais
seguro, a salvo das falhas geológicas.
Em
30 segundos, o Haiti
perdeu 60 por cento do
seu Produto Interno
Bruto (PIB)", disse
Bellerive, referindo-se
à concentração de
pessoas e empresas na
capital. "Então temos de
descentralizar." |
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Bellerive agradeceu à comunidade mundial
pela ajuda recebida até agora, mas disse
seu país terá de receber "cada vez mais"
para ser reconstruído. "O que estamos
buscando é um compromisso de longo prazo
(...). Pelo menos cinco a dez anos."
A secretária de Estado dos EUA, Hillary
Clinton, o primeiro-ministro do Canadá,
Stephen Harper, e os chanceleres do
Brasil, Celso Amorim, e da França,
Bernard Kouchner, participaram do evento
em Montreal, junto a representantes de
nove outros governos.
O grupo decidiu realizar em março, na
sede da ONU em Nova York, uma nova
conferência para receber promessas de
doações.
(Reportagem adicional de Jackie Frank,
Matthew Bigg, Joseph Guyler Delva e
Carlos Barria, no Haiti, e de Randall
Palmer em Montreal)