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PORTO PRÍNCIPE (Reuters) - Um novo
terremoto voltou a atingir o Haiti nesta
quarta-feira, provocando pânico entre as
pessoas que acampam nas ruas da capital
depois do devastador tremor da semana
passada.
O novo sismo, de magnitude 6,1, balançou
prédios já danificados, mas não há
relatos imediatos de mais danos. Com
medo de tremores secundários, que são
comuns após grandes abalos sísmicos,
milhares de pessoas dormem nas ruas
desde o dia 12.
"Foi muito forte. Cada novo tremor é
assustador. Sentimos bem aqui (aponta
para o estômago), porque depois da
terça-feira da semana passada, nunca
sabemos quão forte será", disse Lenis
Batiste, que acampava em cima da grama
com duas crianças.
O Serviço Geológico dos EUA disse que o
epicentro do terremoto de quarta-feira
ocorreu 60 quilômetros a oeste-sudoeste
da capital Porto Príncipe.
Integrantes do batalhão brasileiro que
compõem a missão de paz da ONU no Haiti,
a Minustah, já avaliavam possíveis
desabamentos de escombros deixados pelo
terremoto da semana passada.
"As coisas começaram a tremer. Ficamos
realmente com medo. As pessoas saíram às
ruas", disse Victor Jean Rossiny,
estudante de direito de 24 anos. "Não
temos nada aqui. Nem água".
Enquanto isso, a preocupação com saques
e violência diminuiu graças à presença
de tropas dos EUA que garantem a
segurança e distribuem água e ajuda
alimentar, e pelo fato de muitos
desabrigados terem atendido ao conselho
do governo de buscar abrigo fora de
Porto Príncipe.
O atendimento médico, o sepultamento de
cadáveres, as questões de abrigo e
saneamento e a distribuição de água e
comida continuam sendo prioridade para
as operações internacionais de auxílio,
disseram funcionários da ONU uma semana
depois da tragédia.
Embora ainda haja a necessidade de
escoltas militares para a entrega de
mantimentos, a ONU disse que os
problemas de segurança se concentram em
áreas que já eram consideradas de alto
risco mesmo antes do terremoto. Cerca de
4.000 criminosos fugiram de prisões que
desabaram.
"A situação geral em Porto Príncipe
continua estável, com uma violência
limitada, localizada, e saques
ocorrendo", disse o Escritório de
Coordenação de Assuntos Humanitários da
ONU.
Helicópteros militares Black Hawk, dos
EUA, pousaram na terça-feira no terreno
do devastado Palácio Presidencial
haitiano e soldados começaram a descer e
a descarregar suprimentos, atraindo a
atenção de uma multidão desesperada por
ajuda.
"Os suprimentos estão começando a chegar
para as pessoas", disse o secretário de
Defesa dos EUA, Robert Gates, durante
visita à Índia. Ele disse esperar que a
presença de tropas norte-americanas
ajude a evitar a violência.
NAVIO-HOSPITAL A CAMINHO
Cerca de 12 mil militares dos EUA estão
no país, em navios na costa ou a
caminho. O navio-hospital USNS Comfort
deve chegar à área na quarta-feira, o
que permitirá a realização de cirurgias
complexas.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez,
principal crítico de Washington na
América Latina, acusou os EUA de estarem
"ocupando" o Haiti sob o pretexto de
prestar ajuda.
Já o presidente haitiano, René Préval,
disse que as tropas dos EUA ajudarão os
integrantes da Minustah (força de paz da
ONU sob comando do Brasil) a garantirem
a ordem pública.
Para tentar acelerar a chegada de ajuda
e controlar a situação, o Conselho de
Segurança da ONU autorizou nesta semana
por unanimidade o envio temporário de
2.000 soldados e 1.500 policiais
adicionais para a Minustah, que já tinha
9.000 homens no país caribenho.
"Sabemos que o mundo quer nos ajudar,
mas já faz oito dias e ainda não vi
comida ou água para a minha família",
disse o sobrevivente Gille Frantz, vendo
o desembarque de tropas norte-americanas
perto do devastado palácio presidencial.
Os soldados chegam também a outras
cidades atingidas pelo terremoto nos
arredores da capital, como Leogane, a
oeste, e Jacmel, na costa sul, para
patrulhar e distribuir ajuda.
Em Leogane, epicentro do terremoto
inicial, a falta de instalações médicas
avançadas impediu muitos pacientes em
estado grave de serem submetidos a
cirurgias que poderiam salvá-los.
"Mesmo antes de todo este drama os
hospitais aqui mal funcionavam", disse
Joel Beaubrun, olhando soldados dos EUA
lançarem mantimentos do ar. "Dá para
imaginar como está agora."
AMPUTAÇÃO COM SERROTE
A entidade Médicos Sem Fronteiras disse
que um avião cargueiro com 12 toneladas
de suprimentos médicos foi impedido de
pousar no congestionado aeroporto de
Porto Príncipe em três ocasiões desde
domingo, e que cinco pacientes morreram
pela falta de tais suprimentos.
"Fomos forçados a comprar um serrote no
mercado para continuar as amputações",
disse Loris de Filippi, que coordena a
emergência no Hospital Chocal, mantido
pelo grupo na favela de Cité Soleil.
Em nota, os Médicos Sem Fronteira
disseram que "drogas para o atendimento
cirúrgico e equipamentos como máquinas
de diálise são urgentemente necessários,
mas os problemas de acesso para as
cargas estão causando demoras na
entrega".
As autoridades do Haiti dizem que o
terremoto matou entre 100 mil e 200 mil
pessoas, e que 75 mil corpos já foram
sepultados em valas comuns.
Até agora as temidas epidemias ainda não
apareceram, embora muitos feridos
estejam vulneráveis a tétano e gangrena,
e os hospitais estejam sobrecarregados.
Mas alguns sinais de normalidade começam
a aparecer no país mais pobre das
Américas. Funcionários da ONU disseram
que milhares de sobreviventes estão
buscando refúgio junto a parentes e
amigos em áreas mais seguras no
interior. A empresa de cruzeiros
marítimos Royal Caribbean retomou suas
escalas na praia particular que possui
em Labadee, na costa norte do país.
Nas ruas da capital, ambulantes voltaram
a vender frutas, legumes e carvão,
embora dezenas de milhares de
sobreviventes ainda implorem ajuda, e os
mantimentos básicos sejam raros e caros.
Os bancos locais permanecem fechados,
mas a ONU disse que há planos para que
eles abram 30 a 40 pontos de
distribuição, onde os clientes poderiam
ter acesso às suas contas.
O preço dos combustíveis duplicou, e há
longas filas de carros, motos e
pedestres com galões em postos de
gasolina. Policiais patrulham alguns
deles.
(Reportagem adicional de Patrick Markey,
Carlos Barria, Andrew Cawthorne,
Catherine Bremer, Tom Brown e Natuza
Nery em Porto Príncipe, Stephanie
Nebehay em Genebra, Lesley Wroughton e
Tabassum Zakaria em Washington)