SANTIAGO (Reuters) - Um dos terremotos
mais poderosos da história sacudiu o
Chile nesta madrugada, causando ao menos
147 mortes, um tsunami e desmoronamento
de residências e hospitais em várias
cidades do país, o que levou o governo a
declarar parte do país zona de
catástrofe.
"Até agora, confirmamos 147 pessoas
mortas ao longo da região afetada",
afirmou Carmen Fernández, diretora do
Gabinete Nacional de Emergência (Onemi).
O terremoto, que teve magnitude 8,8
segundo o Serviço Geológico dos Estados
Unidos e epicentro no sul do país,
estremeceu a capital Santiago, onde
derrubou varandas de edifícios, pontes,
deixou fábricas em chamas e moradores
sem eletricidade e sistema telefônico.
Mais cedo, o presidente eleito do país,
Sebastián Piñera, havia afirmado que o
número de mortos era de 122 e que
poderia subir. "Temos também muitos
feridos", disse Piñera a jornalistas em
Santiago, onde a fumaça se espalhava e
cobria o céu da cidade.
O governo chileno não espera que o
número de vítimas fatais dobre, segundo
o Onemi. "Não acreditamos que possa
dobrar, embora seguimos avaliando",
declarou a diretora.
Ela estimou que em 72 horas as
autoridades poderão ter uma dimensão
completa do impacto real do terremoto.
Imagens da TV local mostraram que um
prédio de 15 andares ruiu em Concepción,
no sul do Chile, uma das regiões mais
afetadas, onde fendas se abriram nas
ruas.
Um tsunami arrasou metade de um povoado
na ilha chilena de Juan Fernández,
localizada a 600 quilômetros da costa e
quase na altura de Santiago. O tsunami
ameaçava atingir a Ilha de Páscoa,
segundo a presidente Michelle Bachelet.
"Há uma enorme quantidade de danos que
não sabemos a exata dimensão, que está
sendo avaliado", disse Bachelet a
jornalistas.
Ela declarou as regiões de Maule, onde
se concentrou a maioria das vítimas, e
Bío-Bío como zonas de desastre.
"Eu nunca na minha vida passei por uma
experiência de tremor como essa, é como
o fim do muno", disse um homem à TV
local da cidade de Temuco.
O movimento sísmico, muito mais poderoso
que o terremoto que devastou o Haiti em
janeiro, também causou pânico no popular
balneário de Viña del Mar.
Já com a luz do dia, policiais e
bombeiros percorriam as ruas em
distintas cidades do país para verificar
a magnitude dos danos e socorrer
vítimas.
"Eu vi os carros caindo e não sabia o
que fazer. Estava sozinho aqui", disse
Mario Riveros, segurança de uma fábrica
em Santiago, parado junto a uma ponte
que desabou. "Me deu vontade de chorar",
acrescentou.
Depois de sofrer vários abalos
subsequentes, a maior delas de magnitude
6,9, o aeroporto da capital foi fechado
por ter a torre de controle danificada,
segundo o governo. Um policial no local
disse a uma rádio que metade do terminal
estava destruído.
Pelo menos três hospitais na capital
desabaram e na cidade de Concepción,
cerca de 400 quilômetros ao sul de
Santiago, o edifício do governo local
desmoronou e pacientes estavam sendo
transferidos dos hospitais, segundo
rádios chilenas.
Apesar do sismo ter tido epicentro no
sul chileno, perto da localidade de
Maule, 321 quilômetros a sudoeste de
Santiago e a 104 quilômetros de Talca,
também foi sentido na vizinha Argentina
e inclusive no Brasil.
Em Santiago e outras cidades do país,
milhares de pessoas saíram de suas casas
e estavam acampando nas ruas com medo de
novos tremores.
"Me salvei porque me joguei para baixo
da mesa, tudo veio para cima, todas as
portas do edifício estavam quebradas",
disse Elba Carrizo, de 81 anos, que
conseguiu sair de seu apartamento antes
que o prédio desabasse, no bairro de
classe média de Maipu.
TSUNAMI ESPERADO NA ILHA DE PÁSCOA
Apesar de ainda não se saber com
exatidão o impacto do tsunami sobre o
território insular do Chile, o governo
enviou uma fragata à ilha de Juan
Fernández.
A onda gigante também atingiu o litoral
em Iloca, onde não havia relatos
imediatos de vítimas. Mas também
colocava em perigo outras regiões.
"Também poderia ser uma ameaça para
costas mais distantes", disse o Centro
de Advertência de Tsunamis do Pacífico
em sua página na Internet.
O governo chileno ordenou o esvaziamento
de algumas regiões da Ilha de Páscoa,
onde se esperava o tsunami de maneira
iminente.
As autoridades norte-americanas
advertiram que as ilhas do Havaí corriam
perigo e que era preciso tomar medidas
urgentes. A Austrália também emitiu um
alerta de tsunami.
MINERADORAS
O terremoto sacudiu uma região onde
estão instaladas grandes minas
produtoras de cobre pertencentes à
gigante estatal chilena Codelco e a
mineradora global Anglo American, entre
outras.
A maior mina de cobre do mundo,
Escondida, propriedade da BHP Billiton,
funcionava normalmente, disse o líder
sindical Zeiso Mercado.
Mas as estradas em direção à mina de
cobre Los Bronces, propriedade da Anglo
American, estavam bloqueadas, segundo
funcionários de segurança da instalação.
As operações ficaram paralisadas em Los
Bronces e El Soldado.
A mineradora de cobre chilena Codelco
suspendeu neste sábado a produção em
suas minas El Teniente e Andina, disse
um porta-voz da companhia, já que ambas
as plantas sofrem um corte de energia
depois do forte terremoto que sacudiu o
Chile nesta madrugada.
O porta-voz detalhou que as minas não
sofreram danos graves e que a companhia
espera que a produção seja retomada nas
"próximas horas".
O ministro de Mineração do Chile,
Santiago Gonzalez, afirmou à Reuters no
sábado que o país poderá honrar seus
compromissos de exportação, apesar da
interrupção nos trabalhos das minas da
Codelco.
O Chile está localizado sobre a
intersecção de duas placas tectônicas
que constituem uma das maiores zonas
sísmicas do mundo. O país sofreu o maior
terremoto já registrado na década de
1960, com uma magnitude de 9,6.
"Venho do terremoto de 1960 em Valdivia,
foi tão horrível (...) eu pensei, é como
o de Valdivia, e aqui estamos", disse
Hilda Hasbun, de 62 anos.
(Reportagem adicional de Fabian Cambero,
Ricardo Figueroa, Alejandro Lifschitz,
Ignacio Badal, Marion Giraldo, Alonso
Soto e Alvaro Tapia, em Santiago; Jorge
Otaola, em Buenos Aires; Patricia Avila
e Conrado Hornos, em Montevidéu; Todd
Benson e Alice Assunção, em São Paulo; e
Terry Wade, em Lima)