Friday, 18/02/11 14:48:30 Atualizada em:Friday, 18/02/11 14:48:30
PT terá que
se reposicionar diante do lulismo, diz André Singer
No momento em que completa 30 anos de
sua fundação, o Partido dos Trabalhadores se vê diante de um novo fenômeno
eleitoral,
O lulismo, que pode obrigá-lo a ter que
se reposicionar no cenário político brasileiro.
Caio
Quero
Da BBC Brasil em São Paulo
Rede
Almeidense.

Singer critica aliança
entre o Partido dos
Trabalhadores e o PMDB
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Esta é a opinião do jornalista e
cientista político André Singer,
pesquisador do sistema eleitoral
brasileiro e ex-porta-voz do governo do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Professor do Departamento de Ciência
Política da Universidade de São Paulo,
Singer publicou no final do ano passado
um artigo em que aponta o surgimento
deste novo fenômeno eleitoral.
Para ele, os programas de distribuição
de renda do governo Lula, aliados à
manutenção da estabilidade política e
econômica, fizeram com que um eleitorado
que tradicionalmente era avesso ao PT
aderisse em massa à candidatura de Lula
em 2006 - ao mesmo tempo em que
eleitores tradicionais do partido, parte
da classe média e do operariado, se
afastaram devido às denúncias de
corrupção.
Este novo eleitorado que forma o lulismo
seria, na opinião de Singer, formado por
pessoas de baixíssima renda e teria como
principais aspirações a manutenção da
ordem e uma ação efetiva do Estado no
sentido de distribuir renda.
Para Singer, o lulismo tem
características que misturam a esquerda
e a direita e representa um desafio
também para a oposição.
Na entrevista abaixo, Singer fala ainda
sobre como deve ser a disputa para a
Presidência neste ano e critica a
aliança do PT com o PMDB, que para ele
"descaracteriza" o partido de Lula.
BBC Brasil - Como aconteceu esse
realinhamento eleitoral em 2006 que deu
origem a este fenômeno que o senhor
chamou de lulismo?
"André Singer - A minha hipótese é que
esse realinhamento foi resultado de
políticas públicas que foram executadas
no primeiro mandato do presidente Lula."
Eu acredito que (ele é fruto de um)
conjunto de políticas voltadas para a
população de baixíssima que ficou (mais)
conhecido pelo Bolsa Família. Na
realidade, é um conjunto de medidas que
envolvem o aumento do salário mínimo, o
crédito consignado, além de uma série de
políticas focalizadas, como, por
exemplo, o (programa) Luz para Todos, a
construção de cisternas no semi-árido
nordestino, a regularização de terras
quilombolas, só para citar algumas.
É o conjunto dessas políticas que
produziu uma mudança na qualidade de
vida de um setor de muito baixa renda,
que o economista Marcelo Néri, da
Fundação Getúlio Vargas do Rio de
Janeiro, costuma chamar de "o Real do
Lula".
O lulismo é o resultado da combinação
entre esse conjunto de políticas e a
manutenção da estabilidade.
Eu parto da hipótese que eu verifiquei
em pesquisas que essa população (de
baixíssima renda), que eu chamo de 'subproletariado',
é uma fração de classe que tem um
aspecto conservador, que é o de temer o
conflito político e, portanto, preferir
ou aspirar que as mudanças que eles
querem sejam feitas sem ameaça à ordem
estabelecida.
Então, o primeiro mandato do presidente
Lula acabou por executar esse programa
político.
BBC Brasil -Esse realinhamento pode
levar a uma hegemonia do PT por algumas
décadas?
"Singer - No governo Fernando Henrique,
o então ministro Sergio Motta falava de
20 anos de PSDB no poder."
Eu acho que o PSDB pensava nisso e eu
penso que, de alguma maneira, o PT
também pensa nisso. Não sei o quanto é
consciente, mas eu acho que um pouco
esse pano de fundo está presente.
Não sei se dá para chamar de hegemonia,
porque este é um conceito mais amplo,
diz respeito a uma capacidade de
liderança intelectual e moral, que não é
propriamente de um partido, mas é de uma
classe que esse partido pode expressar.
Acho que os dois grandes partidos
brasileiros, que são o PSDB e o PT, têm
um pouco esse projeto, que é legítimo,
não há nada que fira as normas
democráticas, desde que os processos
competitivos continuem.
Eu diria que, sem dúvida, se a minha
hipótese do realinhamento se confirmar,
isso pode favorecer uma permanência do
PT em um período mais longo, talvez
próximo de 20 anos no poder.
Mas tudo isso é especulativo e muito
difícil de afirmar categoricamente,
porque o comportamento eleitoral é tão
imprevisível quanto a meteorologia.
BBC Brasil - Até que ponto o senhor acha
que pode haver alguma consciência por
parte do presidente Lula em relação a
esse processo? Porque ele abandonou o
discurso de esquerda clássico e fala
muitas vezes diretamente com essa
população.
"Singer - Isto eu não saberia dizer, eu
acho que o presidente Lula é dotado de
uma intuição política poderosíssima, e é
possível que essa intuição tenha levado
ele a perceber, se é que a minha
hipótese está correta."
É possível que ele tenha intuído isto,
mas eu não posso ir além de uma
especulação.
BBC Brasil - Há uma identificação por
parte deste eleitorado com a trajetória
de vida de Lula? Não há um aspecto
personalista no lulismo? Como a ministra
Dilma Rousseff pode lidar com esse
eleitorado, até porque ela tem um
caráter mais técnico.
Se a minha hipótese do realinhamento se
confirmar, isso pode favorecer uma
permanência do PT em um período mais
longo, talvez próximo de 20 anos no
poder.
André Singer, cientista político
Singer - Não é exatamente que exista uma
identificação com a trajetória de vida
do presidente, mas o contrário. O fato
de ele ter vivido pessoalmente a
situação de vida que essa fração de
classe vive, em minha opinião, fez
diferença no governo.
Há uma série de situações da vida
cotidiana que a maioria dos políticos e
dos analistas políticos que vêm da
classe média não conhecem, e esta
sensibilidade vem mais fácil para quem
viveu essa situação.
Eu faço uma referência no artigo a esse
aspecto, de que a biografia pessoal do
presidente ajudou na conformação deste
conjunto de políticas que teve esse
resultado.
Além disso, eu digo uma outra coisa, que
é de que ele tem mais legitimidade para
falar em nome desta fração de classe do
que, por exemplo, o presidente Getúlio
Vargas ou o presidente João Goulart, que
eram latifundiários, que eram de uma
classe social abastada.
Você diz que há aspectos personalistas
nessa caracterização do lulismo. Eu acho
que há elementos de carisma no lulismo.
O carisma, na definição do (sociólogo
alemão Max) Weber, é aquela situação em
que você atribui a uma determinada
pessoa características tão especiais que
só essa pessoa vai fazer tal coisa,
porque ela é dotada de características
únicas, excepcionais.
Entendido o carisma desse modo, há um
elemento de carisma no lulismo,
sobretudo no Nordeste, mas ele não é o
elemento predominante, a meu ver.
O elemento predominante é mais fácil
você ver no Sudeste, por exemplo. Se
você pega uma cidade como São Paulo, o
lulismo não é como no Nordeste. Ele não
tem essa característica carismática, ele
é mais a adesão a um conjunto de
políticas públicas de maneira racional.
Então, se o lulismo for
predominantemente, a adesão a um projeto
político que é encarnado pelo presidente
Lula neste momento, eu diria que não é
tão difícil a transferência (de votos
para Dilma), porque não é tanto a visão
de que só ele pode executar esse
projeto, mas sim, de que é um projeto
coletivo.
BBC Brasil - Supondo que não tenha
nenhuma interferência do governo nisso,
mas o fato de ter sido feito um filme
sobre a vida de Lula enquanto ele ainda
é presidente não quer dizer que o
carisma é mais forte? É um filme baseado
na história de vida deste "mito".
Singer - A questão do filme é
interessante, e eu poderia dizer que
sim, de um certo ponto de vista, o fato
de que tenha gerado um filme é um sinal
de valorização da figura dele.
Mas eu diria, ao mesmo tempo, que o fato
de que o filme parece não ter tido o
sucesso esperado, sobretudo no Sudeste,
pode ser um sinal do que eu estou
dizendo, de que é menos uma adesão
carismática a ele e mais o
reconhecimento de um determinado
projeto.
BBC Brasil - Em uma entrevista na semana
passada, o ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso classificou a candidata
Dilma como dogmática, a colocou como
mais à esquerda do que o presidente
Lula. O senhor acha que isto pode ser
uma boa estratégia para a oposição,
porque, pela hipótese do senhor, esse
eleitorado que foi junto com o Lula em
2006 gosta da estabilidade. Colocar que
a candidata Dilma é mais à esquerda que
Lula, tem um passado de guerrilheira,
não pode gerar uma aversão à candidata
dentro deste eleitorado?
Singer - Pode, pode. Acho que, sem
dúvida, a oposição deve estar mirando
nisto. De fato, esse eleitorado é um
eleitorado que, de acordo com o que eu
percebi nas pesquisas, tem a questão da
ordem como uma questão importante, ao
mesmo tempo em que tem um forte apreço
pela intervenção do Estado em favor da
distribuição da renda.
É aí onde a oposição fica sem discurso.
A meu ver, por exemplo, não foi casual
que o assunto das privatizações entrou
em pauta no segundo turno de 2006,
porque, embora não houvesse uma proposta
de novas privatizações, a oposição ficou
identificada com uma posição privatista.
BBC Brasil - O fato de o governador de
São Paulo, José Serra – que até agora
não assumiu sua candidatura – ter
evitado qualquer tipo de confronto com o
presidente Lula, qualquer crítica mais
acentuada ao governo, mostra que ele
deve seguir nesse sentido?
Singer - Ele não pode fazer diferente,
ele está obrigado a isso.
Nos estudos de comportamento eleitoral,
a avaliação do governo é um item muito
importante, no sentido de saber se
queremos continuar ou queremos mudar (as
políticas atuais).
Como a população está avaliando muito
positivamente este governo (Lula), o
candidato da oposição não pode fazer
outra coisa a não ser dizer que vai dar
continuidade a essas políticas.
Eu não tenho nenhuma dúvida de que se o
governador Serra for o candidato do
PSDB, ele vai continuar com essa
estratégia de não brigar com o governo.
André Singer, cientista político
Eu não tenho nenhuma dúvida de que, se o
governador Serra for o candidato do
PSDB, ele vai continuar com essa
estratégia de não brigar com o governo.
BBC Brasil - E qual deve ser o peso do
possível candidato Ciro Gomes (PSB) e da
candidata Marina Silva (PV) nessa
disputa?
Singer - Ciro Gomes já foi candidato por
duas vezes, e ele tem, nessas
candidaturas, uma trajetória bem
coerente.
Ele está procurando ocupar um espaço de
centro-esquerda, que era o espaço
original do PSDB e que o PSDB abandonou
quando fez uma aliança à direita com o
então PFL, hoje Democratas, e uma
política mais conservadora.
Nesse sentido, ele (Ciro Gomes) tem
razão quando diz que disputa também com
o candidato do PSDB, que ele pode tirar
votos do candidato do PSDB.
Ao mesmo tempo, como o PT se deslocou em
direção ao centro, o PT também passou a
disputar esse espaço, a partir de 2002.
Então, eu diria que ele (Ciro) tira
votos de um e de outro.
Já a candidatura Marina é um pouco
diferente. Ela é uma candidatura nova,
que tem, a meu ver, um potencial de
atrair setores de classe média,
sobretudo universitários, que têm muita
simpatia pela causa ambientalista.
Ela, de fato, será a primeira
candidatura que os cientistas políticos
chamam de pós-materialista, porque ela
vai tentar sair um pouco da agenda
principal, que é a questão da
distribuição da renda.
Como eu acho que o Brasil ainda é um
país em que a questão da distribuição de
renda está muito presente, eu não
acredito que ela tenha possibilidade de
passar muito de 10% dos votos. Mas esses
10% seriam já uma votação muito
significativa e podem ser o fiel da
balança.
BBC Brasil - O senhor aponta uma
desconexão entre o voto no Lula e o voto
no PT, que continuaria forte entre a
classe média, o operariado. Qual será o
futuro do PT? Ele terá que se tornar um
partido lulista? Como será o PT
pós-Lula?
Singer - Eu acho que isso é uma das
grandes interrogações do momento. No
artigo, eu cito um trabalho da
professora Wendy Hunter e do professor
Timothy Power. Eles verificaram que, na
eleição de 2006, essa penetração do
lulismo no interior do país, nas cidades
menores, no eleitorado de renda mais
baixa, não se deu em relação ao PT.
De 2006 para cá, eu acho que pode estar
acontecendo um processo de confluência
entre o lulismo e o petismo.
Eu vejo indícios possíveis disso quando
a gente a analisa a eleição municipal de
2008, quando o PT não foi bem nas
capitais, que são colégios eleitorais
influenciados pela classe média, mas foi
muito bem no entorno das capitais, que
são as regiões metropolitanas onde há
uma população de baixa renda mais
predominante.
Isto pode ser um sinal de que o
eleitorado lulista está começando a
convergir para o PT, começando a votar
em candidatos a prefeito, a deputado, a
vereador, a governador do PT.
Se isso acontecer, se isso estiver
acontecendo, será um processo lento, e é
uma das possibilidades de
institucionalização do lulismo, que ele
seja canalizado para o PT. Se isso
acontecer, é provável que a gente
assista a um processo de transformação
do PT.
O PT é um partido com uma origem
ideológica muito marcada como um partido
de esquerda e que manteve até hoje um
ethos de esquerda bastante nítido, em
que pese o fato de ele ter sofrido
transformações.
O partido se institucionalizou muito, o
PT deixou de ser um partido com forte
influência sindical e passou a ser um
partido com forte influência
parlamentar, o partido não tem mais a
força da militância que tinha antes,
está mais profissionalizado.
Houve também algumas mudanças
programáticas, mas se você olhar para o
conjunto, o PT tem um ethos de partido
de esquerda.
Se o lulismo realmente for para o PT, é
provável que haja alguma mudança, porque
o lulismo não tem essa característica de
esquerda que o PT tem.
André Singer, cientista político
Se o lulismo realmente for para o PT, é
provável que haja alguma mudança, porque
o lulismo não tem essa característica de
esquerda que o PT tem. Ele tem aspectos
de esquerda na aspiração de intervenção
do Estado para redistribuição de renda,
mas tem aspectos que não são de
esquerda.
Então é possível que o PT venha a ser
uma resultante do encontro entre essas
duas forças.
BBC Brasil - O lulismo pode matar o
petismo?
Singer - É muito difícil fazer uma
afirmação categórica. Como eu acho que o
PT construiu uma trajetória sólida, é
mais provável que haja uma resultante
que seja a fusão das duas coisas do que
o claro predomínio de uma delas.
BBC Brasil - O senhor diz que o fato de
Lula ter mantido a estabilidade tirou
dos partidos de centro a plataforma que
usavam para atingir o eleitorado mais
pobre. Como ficam o PSDB e o DEM?
Singer - Eu acho que eles estão em uma
situação muito difícil momentaneamente,
porque perderam uma parte de seu
discurso, que era o discurso do medo.
Tentaram substituir pelo discurso da
ética, mas esse discurso da ética não
tem a mesma eficiência eleitoral, porque
esse setor do eleitorado (mais pobre)
prioriza as questões relativas às
condições vida, que são pra eles
fundamentais.
Por hora, mantidas as condições atuais,
eles estão condenados a fazer uma
mágica, que é provar para o eleitorado
que a oposição é melhor para dar
continuidade aos programas do governo do
que o próprio governo.
BBC Brasil - E a esquerda, dentro do PT
e fora do PT, como fica diante desse
fenômeno?
Singer - A esquerda está diante de um
desafio, assim com a direita e o centro.
O surgimento de uma força política nova,
com características ideológicas
diferentes, coloca para a esquerda a
necessidade de se reposicionar.
Diante de uma liderança, de um
movimento, como é lulismo, que tem
características populares muito
arraigadas, a esquerda se vê diante da
necessidade de adotar uma posição que ao
mesmo tempo reconheça essas
características populares, que são
importantes, mas reafirme o seu ponto de
vista ideológico, que é diferente do
lulismo.
Nenhum partido no Brasil que queira ter
eficiência eleitoral pode prescindir
desse eleitorado (de baixa renda),
porque até a eleição de 2006, eu estimo,
ele poderia ser metade de todo
eleitorado.
Eu quero fazer uma ressalva que é a
seguinte: as mesmas políticas que
levaram ao surgimento do lulismo estão
também fazendo com que uma parte deste
eleitorado mude de condição, se
transformando nessa nova Classe C.
BBC Brasil - Como deve se comportar essa
nova Classe C?
Singer - Esta é uma das perguntas mais
interessantes deste momento, para a qual
eu não tenho resposta, porque as
pesquisas ainda não iluminaram este
aspecto.
A gente pode pensar duas coisas
contraditórias: ou que, ao mudarem de
condição de vida, eles passem a votar
diferente, até para se diferenciarem da
condição de vida anterior; ou que, em
uma perspectiva de reconhecimento de que
a mudança teve relação com a
implementação de certas políticas, eles
vão votar pelo prosseguimento dessas
mesmas políticas.
As duas coisas são possíveis.
BBC Brasil - Se a ministra Dilma perder
a eleição, isto desestabilizaria o PT, o
lulismo?
Singer - Eu diria que, se a ministra
perder as eleições, provavelmente o
lulismo terá se comprovado uma hipótese
menos importante do que eu estou
imaginando.
Para o PT, vai representar uma derrota
importante, como foi para o PSDB em 2002
e 2006, mas, até onde eu consigo
enxergar, o partido me parece
consolidado o suficiente para poder
permanecer na oposição e se reapresentar
em 2014, 2018.
BBC Brasil - Talvez com o próprio Lula?
Singer - Possivelmente com o próprio
presidente Lula.
BBC Brasil - O novo presidente do PT,
José Eduardo Dutra, afirma que a
campanha de Dilma será pragmática e que
o PT hoje é um partido pragmático. O
Brasil perdeu a esquerda ideológica do
PT dos anos 1980?
Singer - Esse é um aspecto importante.
Eu acho que o PT, menos do ponto de
vista programático e mais do ponto de
vista de sua política de alianças,
transitou para uma postura pragmática
que eu acho excessiva, e isso não só em
função do próprio PT, mas em função do
que o PT significa para o sistema
partidário brasileiro.
Eu acho que o PT, ao privilegiar a
aliança com o PMDB, se descaracteriza
como partido essencialmente
programático, porque o PMDB tem essa
característica, é um partido que não tem
um programa claro perante a sociedade
brasileira.
Certamente tem um programa registrado,
mas não tem um programa que o eleitorado
consiga discernir, e é isso que permite
ao PMDB apoiar o segundo mandato do
governo Fernando Henrique, que foi
privatizante, e o segundo mandato do
presidente Lula, que teve
características bem diferentes, se
quisermos usar palavras mais fortes, foi
estatizante.
O PMDB, como um partido sem programa,
ajuda a descaracterizar o PT enquanto
partido programático.
André Singer, cientista político
O PMDB, como um partido sem programa e
sendo o ponto mais importante da
composição que o PT está construindo,
ajuda a descaracterizar o PT enquanto
partido programático.
Esse aspecto é hoje o principal problema
do sistema político partidário
brasileiro, ele está ficando
excessivamente pragmático.
BBC Brasil - O PT pode então estar
seguindo o mesmo caminho do PSDB quando
se aliou com o então PFL?
Singer - Eu acho que em um certo sentido
sim, se você desconsiderar as questões
exclusivamente pragmáticas.
Do ponto de vista pragmático, a escolha
do PMDB é totalmente compreensível. O
PMDB tem um tempo longo na televisão e
tem uma estrutura nacional importante,
embora seja muito heterogêneo.
Então, a escolha do PMDB é uma escolha
pragmaticamente compreensível, mas eu
diria que, do ponto de vista dos
interesses da sociedade, e não
exclusivamente dos interesses
partidários, o PT está cometendo um erro
parecido com aquele que o PSDB cometeu
ao fazer uma aliança com o PFL, que, de
um certo ponto de vista, descaracterizou
definitivamente o PSDB.
(O PSDB) continua sendo um partido
importante, mas não tem mais aquelas
características ideológicas que tinha de
início.
BBC Brasil - Existe espaço para um
partido de esquerda programática no
mundo de hoje?
Singer - No mundo inteiro, nós estamos
vivendo um processo de americanização da
política. Esta americanização, inclusive
na Europa, é um processo de
pragmatização do comportamento
partidário. Nesse sentido, eu diria que
a tendência é na direção contrária.
No entanto, isto está levando a um
esvaziamento da democracia, o que é um
processo perigoso.
À medida que você tem partidos que não
são programáticos, que não são
ideológicos, a sociedade passa a
considerar que a política é um assunto
dos políticos, que é um assunto de
interesse dos políticos para si mesmos,
o que é um grande problema.
Isto, por sua vez, produz um
distanciamento do eleitorado com relação
ao processo político, e esse
distanciamento vai reforçando o
descolamento que existe entre a esfera
política e a esfera social, com o
agravamento de uma série de problemas
que existem em todos os países
democráticos.
Eu diria que, se de um lado existe pouco
espaço para partidos ideológicos, ao
mesmo tempo eles nunca foram tão
necessários, porque aparentemente não há
outra maneira de você revitalizar a
política democrática, que precisa ser
revitalizada quase que desesperadamente.
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