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Clint Eastwood nd premiação do Museu da Tolerância International Film Festival
in Los Angeles, Novembro los. 14/11/2010
Moloshok REUTERS / Danny / Arquivo
SÃO PAULO (Reuters) - Aos 80 anos,
completados em maio de 2010, Clint Eastwood vive uma década de ouro como
diretor. Especialmente nestes anos 2000, muito embora outros de seus
trabalhos impecáveis e premiados, como "Os Imperdoáveis", pertençam aos anos
1990.
Sua excelente forma profissional pode mais uma vez ser comprovada no drama
"Além da Vida" - no qual o cineasta se arrisca num tema muito escorregadio,
a vida após a morte.
Contando com um roteiro do talentoso Peter Morgan (roteirista de "A Rainha"
e "Frost/Nixon"), Clint costura três histórias, em três diferentes locais do
mundo.
A inteligência e sensibilidade do espectador são despertadas lentamente para
interessar-se por essas pessoas e outras que as cercam. Flui naturalmente a
curiosidade de saber como e quando se encontrarão - porque não é preciso ser
médium para perceber que isso acontecerá.
Marie LeLay (Cécile de France, de "Um Lugar na Plateia") é uma bem-sucedida
jornalista francesa, âncora de um respeitado programa de televisão. De
férias na Indonésia com o namorado (Thierry Neuvic), ela é surpreendida pelo
tsunami - e quase morre.
A maestria do filme, aliás, está igualmente no realismo das sequências do
tsunami, realmente impressionantes.
De volta a casa, em Paris, Marie retoma o trabalho, mas se sente diferente.
Suas motivações parecem ter perdido o sentido. Ela sente-se particularmente
perturbada pelas visões que experimentou no seu estado de quase morte -
quando viu vultos vindo em sua direção, numa atmosfera brilhante.
Ela procura conversar sobre o assunto, mas tudo o que encontra é descrédito.
E sua vida tão impecável e organizada começa a desmoronar.
Em Londres, os gêmeos Marcus (George McLaren) e Jason (Frankie McLaren) são
o esteio um do outro, unidos diante da séria instabilidade da mãe, uma
dependente de heroína com dificuldades de abandonar o vício. Jason,
especialmente, é o líder da casa. Mas o equilíbrio desaba quando ele é
atropelado e Marcus deve encarar uma família adotiva temporária, enquanto a
mãe vai se tratar.
Em San Francisco, George Lonegan (Matt Damon, trabalhando pela segunda vez
com o diretor, depois de "Invictus") tem uma relação íntima e incômoda com a
morte. Ele parece dotado do dom de intermediar o diálogo entre os mortos e
os vivos, simplesmente segurando as mãos desses últimos.
O sucesso é tanto que ele pensou em viver disso, o que seduz especialmente
seu irmão, Billy (Jay Mohr). Mas George acaba desistindo de tudo,
encontrando emprego como operário e procurando desesperadamente uma vida
normal.
Nesse terreno pantanoso, cheio de armadilhas religiosas, o diretor encontra
os meios para impor seu estilo. Mostra-se menos interessado em arrancar
certezas sobre a outra vida do que em extrair o máximo da verdade humana de
cada um de seus personagens.
Assim, pouco importa se George tem mesmo um dom - embora se deixe muito
clara a malandragem explícita de uma série de falsos místicos procurados
pelo menino Marcus. Também não é relevante acreditar ou não nas visões de
Marie. O importante é que suas relações com esse possível além da vida mudou
substancialmente sua forma de pensar e motiva novos e inquietantes
sentimentos.
Não há como duvidar da dor de George, solitário ao extremo, da aflição de
Marcus para um contato com o irmão morto, nem da angústia de Marie por
explorar suas novas percepções. Sua honestidade, assim como a do filme, são
inquestionáveis.
Mr. Eastwood, seja lá qual for a sua fé, se tiver uma, não quer converter
ninguém, nem fazer um filme doutrinário - como aconteceu com alguns dos
supersucessos espíritas brasileiros de 2010.
"Além da Vida" é mais uma de suas obras sobre a extraordinária complexidade
da vida e da infinidade de escolhas difíceis que seres humanos têm de fazer
para explorar seus caminhos. E ele o faz como um mestre, com elegância e
sutileza.
(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)
* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb