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Wednesday, 16/06/10 10:48:32
Atualizada em:Wednesday, 16/06/10 10:48:32
Diva do cinema marginal,
Helena Ignez estréia como diretora em Gramado
Canção de Baal’, primeiro longa da atriz,
concorre na mostra gaúcha.
Musa de Sganzerla e Glauber Rocha, ela revolucionou o modo de atuar.
Da Rede Almeidense, com agências

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Helena Ignez
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A prostituta
Janete Jane, de
“O bandido da
luz vermelha”
(1968) e Ângela
Carne e Osso, “a
mulher dos
homens boçais”,
de “A mulher de
todos” (1969),
fizeram da atriz
baiana Helena
Ignez diva
absoluta do
cinema marginal.
Agora, aos 67
anos, a musa dos
filmes de
Rogério
Sganzerla desce
do pedestal e
estreia como
diretora de
longa-metragem
com “Canção de
Baal”, que será
exibido nesta
segunda-feira
(10), na mostra
competitiva da
37ª edição do
Festival de
Gramado.
Veja fotos da
trajetória de
Helena Ignez
Livre adaptação
da peça escrita
pelo alemão
Bertolt Brecht,
a produção é
considerada pela
cineasta a
“continuação de
um caminho”.
“Brecht é um dos
formadores do
meu pensamento
artístico. Não
só do meu, mas
do Glauber
também. Fizemos
um trabalho
pioneiro sobre o
autor quando
estudávamos
teatro em
Salvador, no
final dos anos
50”, conta
Helena, que foi
casada com o
diretor do
clássico “Terra
em transe”
(1967), e atuou
em seu primeiro
filme, o curta
“O pátio”
(1959).
Baal, poeta
irônico em busca
de uma vida
libertina, é
interpretado
pelo ator Carlos
Careqa. O elenco
também conta com
as atrizes
Simone Spoladore,
Beth Goulart e
Djin Sganzerla –
filha de Helena
e de Sganzerla,
com quem foi
casada por 35
anos, até a
morte do cinesta,
em 2004.
“Um crítico
italiano que viu
‘Canção’ em
Cannes disse que
é uma declaração
de amor às
mulheres. Mas o
que eu quis foi
falar sobre o
machismo”,
revela a
diretora. “E não
considero o
filme feminista,
porque o
comportamento
das mulheres
também é posto à
prova. De certa
forma, elas são
vítimas e
algozes nesse
jogo cruel”.
Tarantino
“Canção de Baal”
foi exibido em
mostra paralela
na útlima temporada
do Festival de
Cannes, em maio
deste ano. Foi
lá que Helena
recebeu um
tributo
inesperado: o de
Quentin
Tarantino.
O diretor
americano
procurou a atriz
para falar de “O
bandido da luz
vermelha”.
“Tarantino veio
me dizer que é
fã do Sganzerla
e fascinado pela
trilha sonora o
filme”,
relembra, cheia
de orgulho.
Além da música,
a atuação de
Helena Ignez
contribuiu para
que o longa se
tornasse o
símbolo maior do
cinema marginal,
corrente
alternativa dos
anos 60 e 70,
que tem entre
outros
representantes,
“Matou a família
e foi ao cinema”
(1969), de Júlio
Bressane.
A performance
livre e
debochada de
Helena como
Janete Jane, a
amante do
bandido vivido
pelo ator Paulo
Villaça, é
considerada por
especialistas
como uma
reinvenção do
modo de
interpretação
feminina no
cinema. “Nunca
fui uma atriz
intuitiva,
sempre busquei o
estudo, a
técnica”.

Dirigida por
Glauber,
Bressane e
Sganzerla,
Helena diz que
sua técnica como
diretora em
“Canção de Baal”
tem pouco da
linguagem da
escola
cinematográfica
do qual fez
parte. “Fiz uma
produção livre,
sem contar com
dinheiro público
e não tenho
cobrança por uma
grande
bilheteria.
Nesse sentido,
meu filme se
parece com o
cinema marginal
e o cinema
novo”.
Preconceito com
o teatro
Para Helena
Ignez, a mistura
de teatro e
cinema de
“Canção de Baal”
é o que falta às
produções
atuais. “Existe
uma formação
teatral muito
pequena por
parte dos
cineastas hoje.
Vou além e digo
que há até um
certo
preconceito”,
opina. “O
resultado disso
são diálogos
fracos e
roteiros
dramaticamente
mal explorados
nos filmes”,
completa Helena,
sem citar nomes.
Elogio, ela faz
ao
documentarista
Joel Pizzini, pelo
trabalho em “500
almas" (2004).
“Joel é um
pensador do
cinema”, opina.
“Também gosto do
Walter Salles,
que tem um
caráter
especial, uma
personalidade
renascentista”.
Nada que se
compare ao
brilhantismo de
Glauber e
Sganzerla. “Tive
a sorte de
conviver com
dois gênios. Mas
a
genialidade é companheira
íntima
da tragédia.
Caso desse
aqui...”, diz
ela, apontando
para sua
camiseta
estampada com o
rosto do
roqueiro Jimi
Hendrix. “A
genialidade
parece que atrai
a destruição,
seja em forma de
morte prematura
ou loucura...”
Tal qual
os homens
geniais com quem
conviveu, Helena
Ignez alcançou o
sucesso muito
cedo. “Aos 24
anos eu era uma
estrelinha. Já
tinha feito
tanta coisa que
me sentia velha.
E sucesso na
juventude é uma
desgraça”,
reflete.
Nos anos 80,
reencontrou o
equilíbrio que a
fama e a
perseguição da
ditadura haviam
tomado através
da prática
diária de tai
chi chuan e dos
estudos do
taoísmo. “Nunca
fiz terapia, nem
tomei
antidepressivo.
Nem mesmo nos
piores momentos,
quando o Rogério
estava
morrendo”,
garante. “Não
sou religiosa.
Deus para mim é
um sentimento,
não essa
entidade cheia
de
características
humanas que as
pessoas
acreditam”.
Coronelismo
baiano
Aquela que um
dia foi a musa
do cinema como
forma de
revolução,
atualmente vive
em
um apartamento
com vista para o
Pão de
Açúcar, no
sossegado bairro
da Urca. Mas
sempre vem a São
Paulo trabalhar
em
sua produtora,
no centro da
capital, cujas
paredes são
tomadas por
pôsteres de
filmes de
Sganzerla. "Ele
é meu eterno
namorado",
declara, com um
meio sorriso.
Helena Ignez no
jardim de sua
produtora, em
São Paulo.
(Foto: Daigo
Oliva/Divulgação)
Com sua terra
natal, mantém
uma relação de
amor e ódio.
“Fiz as pazes
com
Salvador. Mas a
alta sociedade
baiana, no tempo
da minha
juventude, era
de uma sordidez
inacreditável. E
não mudou muita
coisa”, opina.
“Talvez, o
problema seja
essa herança
coronelista que
se estendeu até
o último
instante, com o
maior coronel da
Bahia, que foi o
Antonio Carlos
Magalhães”.
Após lançar
“Canção de Baal”,
Helena dará
início às
pesquisas de um
documentário
sobre a maconha.
“Sou a favor da
descriminalização como
forma
de diminuir a
violência. Mas
meu filme não
será
pró-maconha”,
ressalta.
Antes disso, a
atriz aguarda
ansiosa a
continuação de
“O bandido da
luz vermelha”,
que deve estrear
em 2010. “Luz
nas trevas - a
volta do bandido
da luz
vermelha”, do
diretor Ícaro
Martins, traz o
cantor Ney
Matogrosso no
elenco.
E Helena Ignez
faz uma rápida
participação
especial em
cena. Mas não
como a
inesquecível
Janete Jane.
“Nem pensar!
Seria muito
saudosismo. E
desse mal, eu
nunca sofri”.
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